sábado, 13 de junho de 2015

As Festas de Lisboa e a Procissão de Santo António

Festas de Santo António, São João e São Pedro, Junho de 1949, Lisboa. Cartaz, 100x70cm. - Biblioteca Nacional de Portugal (BNP)

Em Lisboa, as festas que no mês de Junho se dedicam a Santo António, São João e São Pedro, são de especial regozijo da população, em especial as dedicadas a Santo António. Realizam-se festas em diversos pontos da cidade, principalmente nos bairros tradicionais, onde as pessoas se divertem, comendo e bebendo, cantando e dançando até de madrugada. 

Nos anos 50 do século XX, os mais célebres Arraiais de Santo António, foram organizados na Praça da Figueira. Constituíam um espectáculo colorido e cheio de vida, com manjericos e cravo de papel com quadra, queima de alcachofras, fogo de artifício, lanternas, música e bailes, estendendo-se até ao Rossio. 



Recinto das festas dos Santos Populares na Praça da Figueira, 12/6/1950. Negativo de gelatina e prata em acetato de celulose - AML

A devoção dos alfacinhas por Santo António fez dele o santo mais venerado em Lisboa. É invocado para evitar naufrágios, para conseguir casamento, para encontrar objectos perdidos... A imagem do santo foi também a mais utilizada em peditórios públicos, depois do terramoto de 1755 ter destruído a primitiva igreja. Nos bairros populares, as crianças montavam os tronos de Santo António e por eles pediam uma moeda, para a construção de um na nova igreja. 


Procissão de Santo António, Igreja de Santo António, Lisboa, 13/06/1956. Negativo de gelatina e prata em acetato de celulose. Fotógrafo, Armando Serôdio - Arquivo Municipal de Lisboa (AML)

As procissões em Lisboa, constituíram sempre manifestações religiosas organizadas com grande aparato. A Procissão de Santo António, que remonta ao século XVI, integrada nas cerimónias dedicadas ao santo, em Junho, saía do Convento dos Franciscanos, levando à frente a imagem no andor. Antes do Terramoto de 1755, esta procissão terminava, geralmente, com uma corrida de touros, no Rossio, oferecida pelo Município. 


Procissão de Santo António, Santo António da Sé, Lisboa, 13/06/1955. Negativo de gelatina e prata em acetato de celulose. Fotógrafo, Armando Serôdio - Arquivo Municipal de Lisboa (AML)

A Procissão de Santo António, depois de vários anos esquecida, foi retomada em 1981, a 13 de Junho, dia das comemorações da cidade. O percurso de então era bastante reduzido, por isso, a população lhe chamava "o passeio do santo". 
A imagem do santo colocada no andor, sai da Igreja de Santo António para o adro. O santo acompanhado pelo presidente da Câmara, banda de música, escuteiros, bombeiros, crianças e devotos, passa pelos lugares que percorreu há setecentos anos. Nas ruas de Alfama, o santo encontra a imagem de São João da Praça, que aguarda na rua do mesmo nome. Em São Miguel, junta-se-lhe o andor da imagem do arcanjo. Ao passar no Largo de Santo Estêvão, encontra a imagem do santo com o mesmo nome. Na Rua das Escolas Gerais, entra a imagem de São Vicente (padroeiro de Lisboa), o último companheiro, São Tiago, junta-se-lhe em Santa Luzia. Entre janelas com colchas de seda, cravos brancos, música, cânticos e aplausos, avançam os cinco santos cada um em seu andor. Regressa finalmente a sua casa, a Igreja de Santo António.

Procissão de Santo António, a descer a Rua da Madalena, Lisboa, 1958. Negativo de gelatina e prata em acetato de celulose. Fotógrafo, Armando Serôdio - Arquivo Municipal de Lisboa (AML)
Procissão de Santo António - Câmara Municipal de Lisboa (CML)

Artistas e artesãos portugueses dedicaram algumas das suas criações ao tema "Procissão", entre eles, Amadeo de Souza-Cardoso, Francis Smith e o artesão Domingos Lima. O actor e declamador João Villaret tornou célebre o poema "A Procissão".


Procissão Corpus Christi, 1913. Óleo sobre madeira e óleo. Autor, Amadeo de Souza-Cardoso -  Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (CAM)
Procissão com andor de Nossa Senhora, séc. XX. Figurado de barro. Santa Maria de Galegos, Barcelos. Autor, Domingos Gonçalves Lima - Museu Nacional de Etnologia (MatrizNet).

A Procissão, 1939. Óleo sobre tela. Autor, Francis Smith - Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (CAM)
Projecto para painel figurativo (procissão), séc. XX. Guache e marcador sobre papel e plástico. Autores, João Machado Costa e Natércia Costa. - Museu Nacional do Azulejo
Procissão, 1945-46. Óleo sobre tela. Autor, Severo Portela Júnior. - Museu José Malhoa (MatrizNet).
Grupo de procissão, 1865. Desenho à pena. Autor, João António Correia - Museu do Chiado - Museu Nacional de Arte Contemporânea (MatrizNet)
Procissão, séc. XIX. Óleo sobre tela. Autor, José de Brito. - Museu Nacional de Soares dos Reis (MatrizPix)
         
          A Procissão
Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.
Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.
Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.
Tocam os sinos na torre da igreja,
.................................................
Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!
Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!
Tocam os sinos na torre da igreja,
........................................................
Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!
Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!
Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.

          Letra: António José Ribeiro
          Interprete: João Villaret 





Fontes:
Ayuntamiento de Lisboa: El Pueblo de Lisboa, Exposicion Iconográfica, 1990. Museo Municipal de Madrid;
Vieira, Alice, 1993. "Esta Lisboa". Editorial Caminho, Lisboa.
http://www.cm-lisboa.pt/viver/cultura-e-lazer/patrimonio-cultural/procissoes
http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=960







2 comentários:

  1. Gostei muito deste post. Ignorava a importância da procissão. As imagens, como sempre, são muito belas. Obrigada !!!!! Aguardo a próxima publicação !!!!

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    1. Agradeço o seu simpático comentário. Saudações!

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