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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Companhia de Bailado Verde Gaio (1940 - 1950)

Programa de espectáculo pelo Grupo de Bailados Portugueses Verde Gaio / Teatro da Trindade. Ilustração de Bernardo Marques - Museu Nacional do Teatro
As festas comemorativas do duplo centenário da Fundação da Nacionalidade (1140) e Restauração da Independência de Portugal (1640), decorreram no ano de 1940 com diversas cerimónias, um grande cortejo histórico organizado por Leitão de Barros e a Exposição do Mundo Português (23 de Junho a 2 de Dezembro de 1940) erguida em Belém, Lisboa.

António Ferro na inauguração do Museu de Arte Popular, 1948 (em primeiro plano, o segundo a partir da direita) - Museu de Arte Popular
Frederico de Freitas, compositor, maestro e pedagogo
Francis Graça, bailarino, 1946. Foto de Silva Nogueira - Museu Nacional do Teatro
António Ferro (1895-1956), director do Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) e secretário-geral das Festas dos Centenários, desejava impulsionar a criação de um "Ballet Português". Recorrendo à verba do SPN o grupo de bailado começou a criar corpo. A companhia de bailado português que veio a denominar-se "Verde Gaio", deveu-se não só a António Ferro, apaixonado pelos "Ballets Russes", mas também ao compositor Frederico de Freitas (1902-1980), ao bailarino e coreógrafo Francis Graça (1902-1980), grande inovador do teatro musicado, e ao pintor Paulo Ferreira (1911-1999), o mais importante colaborador plástico do "Verde Gaio".

Foto de cena do bailado "Muro do Derrete", Companhia Portuguesa de Bailado Verde Gaio, 1940. Cenário e cortina de Paulo Ferreira - Museu Nacional do Teatro, 1999-2000. Verde Gaio Uma companhia Portuguesa de Bailado (1940-1950). Lisboa:Instituto Português de Museus
Inserido nos acontecimentos festivos do duplo centenário da Fundação da Nacionalidade (1140) e Restauração da Independência de Portugal (1640), o espectáculo de Bailados Portugueses Verde Gaio, estreou na noite de 8 de Novembro de 1940, no Teatro da Trindade, aguardado com expectativa pelo público. O programa ilustrado por Bernardo Marques, mencionava os bailados: "A Lenda das Amendoeiras" com texto de Fernanda de Castro, música de Jorge Croner de Vasconcelos e cenário e figurinos de Maria Keil do Amaral; "Ribatejo" com música de Frederico de Freitas, cenário de Estrela Faria e figurinos de Bernardo Marques; "Inês de Castro" com texto de Adolfo Simões Müller, música de Ruy Coelho e cenário e figurinos de José Barbosa e "Muro do Derrete" com argumento de Carlos Queiroz, música de Frederico de Freitas e cenário, cortina e figurinos de Paulo Ferreira. Os bailados foram coreografados por Francis Graça. A Orquestra Filarmónica de Lisboa foi dirigida pelo maestro Ivo Cruz. Os espectáculos realizaram-se entre 8 e 21 de Novembro de 1940.

Figurino para bailarino do bailado "Muro do Derrete", aguarela sobre papel. Autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro da Trindade, 1940. Foto Luisa Oliveira - Museu Nacional do Teatro
Figurino para bailarina do bailado "Muro do Derrete", aguarela sobre papel. Autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro da Trindade, 1940. Foto Luisa Oliveira - Museu Nacional do Teatro
 
Trajes de cena femininos do bailado "Muro do Derrete". Autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro da Trindade, 1940. Foto José Pessoa - Museu Nacional do Teatro
Foto de cena do bailado "Lenda das Amendoeiras", Companhia Portuguesa de Bailado Verde Gaio, 1940. Cenário de Maria Keil - Museu Nacional do Teatro, 1999-2000. Verde Gaio Uma Companhia Portuguesa de Bailado (1940-1950). Lisboa: Instituto Português de Museus
Figurino para "Dama" do bailado "Lenda das Amendoeiras", guache sobre papel. Autoria de Maria Keil. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro da Trindade, 1940 - Museu Nacional do Teatro
Figurino para "Principe Mouro" do bailado "Lenda das Amendoeiras", guache sobre papel. Autoria de Maria Keil. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro da Trindade, 1940. Foto Luisa Oliveira - Museu Nacional do Teatro
O êxito dos primeiros espectáculos fez com que se criassem outros bailados. No ano de 1941, realizou-se o 2º espectáculo do "Verde Gaio" no Teatro Nacional de S. Carlos, entre 21 e 25 de Junho. No programa surgiram dois novos bailados: "O Homem de Cravo na Boca" com argumento de Francisco Lage, música de Armando José Fernandes, cenário e figurinos de Bernardo Marques e "Dança da Menina Tonta" com música de Frederico de Freitas, argumento, cenário e figurinos de Paulo Ferreira. Os dois bailados foram coreografados por Francis Graça.
O "Verde Gaio" contou com a colaboração de artistas plásticos como Bernardo Marques, Carlos Botelho, Estrela Faria, José Barbosa, Maria Keil, Mily Possoz, Paulo Ferreira e Thomaz de Mello (Tom).
Maquete de cenário do bailado "O Homem de Cravo na Boca", carvão, aguarela e guache. Autoria de Bernardo Marques. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1941. Foto Luisa Oliveira - Museu Nacional do Teatro

Figurino " Homem do Cravo" do bailado "O Homem de Cravo na Boca", aguarela e sobre papel. Autoria de Bernardo Marques. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1941. Foto Luisa Oliveira - Museu Nacional do Teatro 
Figurinos femininos do bailado "O Homem de Cravo na Boca", guache sobre papel. Autoria de Bernardo Marques. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1941. Foto Luisa Oliveira - Museu Nacional do Teatro
Figurino para bailarina do bailado "O Homem de Cravo na Boca", aguarela e guache sobre papel. Autoria de Bernardo Marques. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1941. Foto Luisa Oliveira - Museu Nacional do Teatro 
Maquete de cenário do bailado "Dança da Menina Tonta", guache sobre papel. Autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1941. Foto Luisa Oliveira - Museu Nacional do Teatro
Foto de cena do bailado "Dança da Menina Tonta", Companhia Portuguesa de Bailado Verde Gaio, 1941. Cenário de Paulo Ferreira - Museu Nacional do Teatro, 1999-2000. Verde Gaio Uma Companhia Portuguesa de Bailado (1940-1950). Lisboa: Instituto Português de Museus
Trajes "Moça da Aldeia" e "Tímida", do bailado " A Dança da Menina Tonta," da autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1941. Foto José Pessoa - Museu Nacional de Teatro
Em 1943, a Companhia Verde Gaio apresentou uma série de espectáculos no âmbito dos Festivais Comemorativos do 150º aniversário do Teatro de S. Carlos. O programa mencionava os bailados: "D. Sebastião" com argumento de António Ferro, música de Ruy Coelho, cenário e cortina de Carlos Botelho e figurinos de Mily Possoz e "Imagens da Terra e do Mar" com argumento de António Ferro, música de Frederico de Freitas, cenário de Carlos Botelho e cortina e figurinos de Paulo Ferreira. As coreografias dos espectáculos foram da responsabilidade de Francis Graça.
A Companhia viajou para Espanha, onde deu espectáculos entre 8 e 10 de Maio de 1943, no Gran Teatro del Liceo, em Barcelona. Decorridos dez dias, o "Verde Gaio" apresentou-se no Coliseum, em Madrid, no dia 21 do mesmo mês.
Foto de cena do bailado "D. Sebastião", Companhia Portuguesa de Bailado Verde Gaio, 1943. Cenário e cortina de Carlos Botelho - Museu Nacional do Teatro, 1999-2000. Verde Gaio Uma Companhia Portuguesa de Bailado (1940-1950). Lisboa: Instituto Português de Museus
Figurino "Camões" do bailado "D. Sebastião", aguarela e guache sobre papel da autoria de Mily Possoz. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1943. Foto de Luisa Oliveira - Museu Nacional de Teatro.
Figurino "Anjos Andorinhas" do bailado "D. Sebastião", aguarela e guache sobre papel, da autoria de Mily Possoz. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1943. Foto de Luisa Oliveira - Museu Nacional de Teatro.
Trajes de cena "Mouras" do bailado "D. Sebastião", da autoria de Mily Possoz. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1943. Foto de José Pessoa - Museu Nacional de Teatro.
Foto de cena do bailado "Imagens da Terra e do Mar", Companhia Portuguesa de Bailado Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1943. Cenário de Carlos Botelho. Foto de Luisa Oliveira - Museu Nacional do Teatro.
Maquete para cortina de cena do bailado "Imagens da Terra e do Mar", aguarela sobre cartão, da autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio, 1940-1950. Foto de Luisa Oliveira - Museu Nacional de Teatro
Figurino feminino do bailado "Imagens da Terra e do Mar", aguarela sobre cartão, da autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1943. Foto de Luisa Oliveira - Museu Nacional de Teatro
Trajes de cena "Alentejo" do bailado "Imagens da Terra e do Mar", da autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1943. Foto José Pessoa - Museu Nacional de Teatro
Nas temporadas de ópera de 1946 e 1947, a Companhia Verde Gaio iniciou a sua participação nos bailados das diferentes óperas.
Por ocasião das Comemorações do VIII Centenário da Tomada de Lisboa aos Mouros, num espectáculo de gala realizado no Teatro de S. Carlos, em 26 de Maio de 1947, o "Verde Gaio" apresentou o novo bailado "Festa no Jardim" com argumento de Francisco Lage, coreografia de Guglielmo Morresi, música de W. A. Mozart e cenários e figurinos de Paulo Ferreira.

Foto de cena do bailado "Festa no Jardim", Companhia Portuguesa de Bailado Verde Gaio, 1947. Cenário de Paulo Ferreira - Museu Nacional do Teatro, 1999-2000. Verde Gaio Uma Companhia Portuguesa de Bailado (1940-1950). Lisboa: Instituto Português de Museus
Maquete para cenário do bailado "Festa no Jardim", guache sobre papel, da autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. 1947. Teatro Nacional de S. Carlos. Foto de Luisa Oliveira - Museu Nacional de Teatro
Figurino "Dona de Casa" para o bailado "Festa no Jardim", guache sobre papel, da autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1947. Foto de Luisa Oliveira - Museu Nacional de Teatro
Figurino "Convidada" para o bailado "Festa no Jardim", guache sobre papel, da autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1947. Foto de José Pessoa - Museu Nacional de Teatro
Figurino "Mouro" do bailado "Festa no Jardim", guache sobre papel, da autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos. Foto de Luisa Oliveira - Museu Nacional de Teatro
O bailado estreado pelo "Verde Gaio", no Teatro Nacional de S. Carlos, em Dezembro de 1948, teve grande sucesso. "Nazaré" com argumento e coreografia de Francis Graça, música de Frederico de Freitas, figurinos de José Barbosa, cenário de José Barbosa (na estreia em Portugal) e depois de Eduardo Anahory (na apresentação em Paris), marcou o regresso de Francis como coreografo do grupo.
O ponto mais alto da vida da Companhia Verde Gaio, ficou marcado pela apresentação em Paris, no Théâtre des Champs-Elysées, entre 9 e 19 de Junho de 1949. António Ferro em entrevistas à imprensa francesa elogiava o "Verde Gaio", dando a conhecer ao público parisiense o grupo que resultara da sua paixão pela dança. As criticas dos jornais de Paris foram muitas e bastante entusiastas, sendo largamente difundidas pela imprensa portuguesa.
No final de 1949, António Ferro o grande entusiasta e pilar da companhia, é nomeado ministro de Portugal em Berna, Suiça, afastando-se do cargo de director do SNI.

Fotografia de Francis Graça e Madeleine Rosay, no bailado "Nazaré", 1948 - Museu Nacional do Teatro
Figurino "Mulher da Nazaré" do bailado "Nazaré", guache sobre cartão, da autoria de José Barbosa. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1948. Foto de Luisa Oliveira - Museu Nacional de Teatro
Maquete para cenário do bailado "Nazaré", guache sobre cartão, da autoria de Eduardo Anahory. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio, 1949. Foto de Luisa Oliveira - Museu Nacional de Teatro
Cartaz de apresentação da Companhia de Bailados Portugueses Verde Gaio no Théâtre des Champs-Elysées, em Paris. Foto de Luisa Oliveira - Museu Nacional de Teatro
António Ferro não voltou a intervir na política cultural portuguesa. O "Verde Gaio" apesar de continuar com Francis Graça como director, perdeu o seu ponto de apoio e a sua orientação. O grupo de dança ainda foi convidado para um Festival Internacional de Dança, em Lausanne, onde despertou grande interesse. Em 1950, o "Verde Gaio" foi elogiado por um famoso crítico e historiador de bailado, o inglês Arnold Haskell, director da escola do Sadler's Wells Ballet.
A partir de 1951, o "Verde Gaio" colaborou apenas nas danças das óperas levadas à cena em  S. Carlos, exibindo ocasionalmente algum bailado em cerimónias e festas oficiais, em Portugal e por vezes no estrangeiro.

Figurino "D. Inês" do bailado "Inês de Castro", (2ª versão) aguarela sobre papel, da autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1948 - Museu Nacional de Teatro
Figurino "D. Pedro" do bailado "Inês de Castro", (2ª versão) aguarela sobre papel, da autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1948 - Museu Nacional de Teatro
Figurino "Primeira-Aia" do bailado "Inês de Castro", (2ª versão) aguarela sobre papel, da autoria de Paulo Ferreira. Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Teatro Nacional de S. Carlos, 1948 - Museu Nacional de Teatro

Francis Graça foi afastado do "Verde Gaio" em 1960, sendo a direcção entregue a Margarida de Abreu, professora do Conservatório e directora do Círculo de Iniciação Coreográfica. 
Em 1963, Francis aceitou dirigir a Academia Parnaso, no Porto. Quando já nada o fazia acreditar em voltar ao bailado, recebeu um convite para criar um uma coreografia para o Grupo Gulbenkian de Bailado. O bailado intitulado "Encruzilhada" estreou em 1 de Abril de 1968, no Teatro Politeama, com Isabel Santa Rosa e Carlos Trincheiras, nos protagonistas. Foi o último bailado que Francis coreografou. Faleceu em Julho de 1980, com 78 anos, incapacitado por uma artereosclerose.

Cartaz da Escola de Ballet Clássico Parnaso, 1963 - Museu Nacional deTeatro
Retrato do bailarino Francis, óleo sobre tela, 1930. Autoria do pintor Mário Eloy - Museu do Chiado
Retrato de António Ferro, 1925. Autoria do pintor Mário Eloy - Museu Nacional do Teatro, 1999-2000. Verde Gaio Uma Companhia Portuguesa de Bailado (1940-1950). Lisboa: Instituto Português de Museus.

Fontes:

Museu Nacional do Teatro, 1999-2000. Verde Gaio Uma Companhia Portuguesa de Bailado (1940-1950). Lisboa: Instituto Português de Museus. ISBN- 972-776-016-3

http://www.fundacaoantonioquadros.pt/index.php?option=com_frontpage&Itemid=1


sexta-feira, 10 de maio de 2013

100º aniversário do actor João Villaret

João Villaret, fotografia (positivo p/b, 17,5  x 11,5 cm), séc. XX - Museu Nacional do Teatro

João Henrique Pereira Villaret (Lisboa, 10 de Maio de 1913 — Lisboa, 21 de Janeiro de 1961) foi um actor, encenador e declamador português. Era filho de Frederico Villaret e de Josefina Gouveia da Silva Pereira Villaret.


Bilhete de identidade de João Villaret (15 anos), emitido em 10 de Setembro de 1928, pelo Arquivo de Identificação de Lisboa (vista parcial) - Museu Nacional do Teatro

Bilhete de identidade de João Villaret (30 anos), emitido em 8 de Maio de 1944, pelo Arquivo de Identificação de Lisboa (vista parcial) - Museu Nacional do Teatro
Após frequentar o Conservatório Nacional de Lisboa, João Villaret dedicou-se ao teatro, onde integrou o elenco da Companhia de Teatro Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro (Lisboa), em 1931. Progressivamente ganhou fama como declamador. Em 1941, quando enveredou pelo teatro de revista, provocou algum escândalo, mas, com os êxitos sucessivos provou ser possível conciliar o género dramático e o de revista. A mais popular de todas terá sido Tá Bem Ou Não 'Tá? (1947), onde popularizou o célebre Fado Falado, da autoria de Aníbal Nazaré e Nélson de Barros. Este género de poesia ganhou enorme popularidade, especialmente depois de A Vida É Um Corridinho (1952) ou o famoso A Procissão (1955), da autoria de António Lopes Ribeiro.

João Villaret e Raul de Carvalho, fotografia (positivo p/b,18 x 24 cm). Cena do 1º acto da peça em 3 actos de Alfredo Cortez, "Tá Mar", levada à cena pela Cª Rey Colaço Robles Monteiro no Teatro Nacional Almeida Garrett na temporada 1935-1936 (estreia a 11 de Janeiro de 1936). Encenação de Robles Monteiro, cenários de Abilio de Mattos e Silva - Museu Nacional do Teatro
Maquete de cenário da peça "Tá Mar" (2º acto), guache sobre papel (36,6 x 29,6 cm), 1936. Cenário de Abílio de Mattos e Silva - Museu Nacional do Teatro
Maquete de cenário da peça "Tá Mar" (1º e 3º actos), guache sobre papel (39,5 x 32,7 cm), 1936. Cenário de Abílio de Mattos e Silva - Museu Nacional do Teatro

Figurino para "Rabanete" (João Villaret), guache sobre papel (17,7 x 12,5 cm), 1938. Figurino de José Barbosa, para a peça "Pimpinela" de Pereira Coelho e Norberto Lopes.  Levada à cena pela Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro no Teatro Nacional de Almeida Garret, em 1938 - Museu Nacional do Teatro
A poesia, particularmente a de Cesário Verde, era uma das suas grandes paixões, tendo ficado famosas as suas tertúlias no Café Brasileira. De entre as suas peças mais célebres, destacam-se A Recompensa (1937), de Ramada Curto, A Madrinha de Charley (1938), de Brandon Thomas, Três Espelhos, de Ladislao Vadja (1947), onde representa Moisés, o inspector, Melodias de Lisboa (1955), da sua autoria, Esta Noite Choveu Prata (1954) de Pedro Bloch. Das suas interpretações cinematográficas, destacam-se em O Pai Tirano (1941), de António Lopes Ribeiro, numa breve aparição como pedinte mudo, Inês de Castro (1945), de Leitão de Barros, onde representa Martin, o bobo, Camões (1946), de Leitão de Barros, e aquela que terá sido a sua melhor interpretação de sempre em cinema, a de Telmo Pais (criado), em Frei Luís de Sousa (1950), de António Lopes Ribeiro. O seu último papel foi o de Sebastião, em O Primo Basílio (1959), de António Lopes Ribeiro. 
João Villaret e Igrejas Caeiro, foto de Teixeira (23 x 17 cm). Cena da peça "Rosa Enjeitada" de D. João da Câmara, levada à cena pelos Comediantes de Lisboa / Teatro da Trindade - Museu Nacional do Teatro - Opsis
 
Figurino para "Malacueco" (João Villaret), desenho e pintura sobre papel (50,5 x 34,9 cm), 1944. Figurino de Frederico George, para a peça "Rosa Enjeitada" - Museu Nacional dom Teatro - Opsis

Maquete de cenário da peça "Rosa Enjeitada" (1º acto), guache sobre cartolina (50 x 30 cm), 1944. Cenário de Frederico George - Museu Nacional do Teatro - Opsis
João Villaret, Lucília Simões, Assis Pacheco e António Silva, foto de Teixeira (23 x 26 cm). Cena da peça "Pigmaleão" de Bernard Shaw, pelos Comediantes de Lisboa, 1945. Estreou no Teatro da Trindade e posteriormente foi apresentada no Teatro Sá da Bandeira no Porto - Museu Nacional do Teatro - Opsis.

João Villaret, foto (8,6 x 11,6 cm)  da peça "Se o Rei fosse uma Opereta", pelos Comediantes de Lisboa / Teatro Trindade - Museu Nacional do Teatro - Opsis
Para além de encenador e actor, João Villaret criou um programa semanal na televisão portuguesa, onde declamava poesia. A sua carreira prosseguiu no Rio de Janeiro, onde representou o papel de Cardeal Gonzaga na peça A Ceia dos Cardeais, levada à cena no Teatro Municipal do Rio de Janeiro (Brasil) em 1957. Recebeu o Prémio Eduardo Brazão pela sua interpretação em "Patate" (1959) e o grau de Oficial da Ordem Brasileira do Cruzeiro do Sul. A 2 de Abril de 1960, foi feito Oficial da Ordem Militar de Sant'lago da Espada. Retirou-se dos palcos em 1960, devido a doença prolongada, tendo falecido no ano seguinte com 48 anos de idade. A sua morte causou manifestações de grande pesar em Lisboa. Em sua homenagem, Raul Solnado fundou, em 1965, o Teatro Villaret. O seu nome, foi atribuído a uma escola no concelho de Loures.

Folheto publicitário do filme "Três Espelhos" de Ladislau Vadja, litografia (33,3 x 23,8 cm), 1947.Lisboa Filme e Peninsular Films / Teatro da Trindade - Museu Nacional do Teatro
Programa do filme " Três Espelhos", de Ladislau Vadja, litografia (22,7 x 16 cm), 1947. Fernando Lemos. Lisboa Filmes e Peninsular Films - Museu do Teatro

João Villaret, caracterizado para o papel de Telmo Pais, no filme "Frei Luis de Sousa", fotografia ( positivo p/b 23 x 17 cm). Estreou no cinema S. Jorge em 1950 - Museu Nacional do Teatro
João Villaret no papel de Cardeal Gonzaga, na peça "A Ceia dos Cardeais", fotografia (positivo p/b 23 x 17 cm), 1957. T. Municipal do Rio de Janeiro - Museu Nacional do Teatro
 
Fotografia de Palmira Bastos a homenagear João Villaret, numa festa em sua homenagem realizada em 1960 no Teatro São Luis - Museu Nacional do Teatro

FADO FALADO
Aníbal Nazaré; Nelson de Barros

Fado Triste
Fado negro das vielas
Onde a noite quando passa
Leva mais tempo a passar
Ouve-se a voz
Voz inspirada de uma raça
Que mundo em fora nos levou
Pelo azul do mar
Se o fado se canta e chora
Também se pode falar

Mãos doloridas na guitarra
que desgarra dor bizarra
Mãos insofridas, mãos plangentes
Mãos frementes e impacientes
Mãos desoladas e sombrias
Desgraçadas, doentias
Quando à traição, ciume e morte
E um coração a bater forte

Uma história bem singela
Bairro antigo, uma viela
Um marinheiro gingão
E a Emília cigarreira
Que ainda tinha mais virtude
Que a própria Rosa Maria
Em dia de procissão
Da Senhora da Saúde

Os beijos que ele lhe dava
Trazia-os ele de longe
Trazia-os ele do mar
Eram bravios e salgados
E ao regressar à tardinha
O mulherio tagarela
De todo o bairro de Alfama
Cochichava em segredinho
Que os sapatos dele e dela
Dormiam muito juntinhos
Debaixo da mesma cama

Pela janela da Emília
Entrava a lua
E a guitarra
À esquina de uma rua gemia,
Dolente a soluçar.
E lá em casa:

Mãos amorosas na guitarra
Que desgarra dor bizarra
Mãos frementes de desejo
Impacientes como um beijo
Mãos de fado, de pecado
A guitarra a afagar
Como um corpo de mulher
Para o despir e para o beijar

Mas um dia,
Mas um dia santo Deus, ele não veio
Ela espera olhando a lua, meu Deus
Que sofrer aquele
O luar bate nas casas
O luar bate na rua
Mas não marca a sombra dele
Procurou como doida
E ao voltar da esquina
Viu ele acompanhado
Com outra ao lado, de braço dado
Gingão, feliz, levião
Um ar fadista e bizarro
Um cravo atrás da orelha
E preso à boca vermelha
O que resta de um cigarro
Lume e cinza na viela,
Ela vê, que homem aquele
O lume no peito dela
A cinza no olhar dele

E o ciume chegou como lume
Queimou, o seu peito a sangrar
Foi como vento que veio
Labareda atear, a fogueira aumentar
Foi a visão infernal
A imagem do mal que no bairro surgiu
Foi o amor que jurou
Que jurou e mentiu
Correm vertigens num grito
Direito ou maldito que há-de perder
Puxa a navalha, canalha
Não há quem te valha
Tu tens de morrer
Há alarido na viela
Que mulher aquela
Que paixão a sua
E cai um corpo sangrando
Nas pedras da rua

Mãos carinhosas, generosas
Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem
e entendem sua dor
Mãos que não mentem
Quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam
Mas que sabem perdoar

E pouco a pouco o amor regressou
Como lume queimou
Essas bocas febris
Foi um amor que voltou
E a desgraça trocou
Para ser mais feliz
Foi uma luz renascida
Um sonho, uma vida
De novo a surgir
Foi um amor que voltou
Que voltou a sorrir

Há gargalhadas no ar
E o sol a vibrar
Tem gritos de cor
Há alegria na viela
E em cada janela
Renasce uma flor
Veio o perdão e depois
Felizes os dois
Lá vão lado a lado
E digam lá se pode ou não
Falar-se o fado.


Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Villaret
http://www.infopedia.pt/$joao-villaret
http://www.matriznet.imc-ip.pt/MatrizNet/Apresentacao.aspx