quarta-feira, 22 de maio de 2013

Gato Geométrico para o Dia da Criança

1 - Gato Geométrico
O Gato Geométrico tem uma cabeça invulgar. É formada por um poliedro com 20 faces (triângulos equiláteros) denominado icosaedro regular. Sobre este estão as orelhas, constituídas por formas tridimensionais geométricas que se assemelham ao tetraedro.  O corpo do gato é parecido com um cone.

Para a realização deste gato utilizei os seguintes materiais:

- Cartolina (branco e preto) ou cartolina e tinta acrílica;
- Cola;
- Lápis nº 2;
- Régua graduada (20 cm);
- Tesoura com bicos finos;
- Compasso;
- Transferidor (medir ângulos);
- Fita de cetim;
- Olhos acrílicos.

Passo a passo:
 
2 - Icosaedro planificado (cabeça do gato)

1 - Imprima em cartolina (branco) o modelo do icosaedro, figura 2, correspondente à cabeça do gato.
 
3 - Icosaedro recortado e dobrado
2 - Recorte o modelo do icosaedro. Dobre todas as faces pelas linhas tracejadas (arestas). Dobre as abas para o interior, imagem 3.

4 - Modelo planificado da orelha do gato.

3 - Imprima duas vezes, o modelo da orelha do gato em cartolina (preto), figura 4.
 
5 - Orelhas recortadas e dobradas
4 - Recorte os modelos das orelhas do gato. Dobre todas as faces pelas linhas tracejadas (arestas). Dobre as abas para o interior, imagem 5.


6 - Cabeça e orelhas do gato, construídas e coladas
5 - Cole cada uma das abas ao triângulo (face) correspondente. Construa a cabeça (icosaedro) e as orelhas, imagem 6.


7 - Colagem das orelhas, bigodes e olhos, na cabeça do gato
6 - Sobreponha as orelhas na cabeça do gato e cole. Para fazer os bigodes corte tiras de cartolina, sobreponha e cole. Coloque os olhos, imagem 7.

8 - Modelo planificado do corpo do gato

7 - Na cartolina desenhe com o compasso o modelo do corpo do gato, figura 8. 

9 - Corpo recortado
 8 - Recorte o corpo do gato (imagem 9), coloque a cola (parte pontilhada, figura 8), enrole e cole (imagem 1).


10 - Modelo da cauda

9- Imprima em cartolina o modelo da cauda do gato, figura 10. Recorte e cole no corpo, imagem 11.
 
11 - Finalização com laço de fita, patas e cauda.
10 - Faça um pequeno orifício na cabeça, descolando um pouco a cartolina. Cole a cabeça no vértice do corpo, fazendo uma ligeira pressão. Recorte as patas na cartolina em preto e cole. Recorte duas pequenas manchas em preto e cole na cauda, uma de cada lado.  Coloque a fita em redor do pescoço e faça um laço. 


sábado, 18 de maio de 2013

Museu da Batalha venceu o Prémio Kenneth Hudson

Museu da Comunidade Concelhia da Batalha (MCCB)
Hoje, Dia Internacional dos Museus, o Museu da Comunidade Concelhia da Batalha (MCCB) está duplamente de parabéns! 
Nomeado entre 28 museus de 16 países, o MCCB recebeu hoje o Prémio Kenneth Hudson do Fórum Europeu dos Museus, na cerimónia do Prémio Melhor Museu do Ano de 2013. Foram apresentadas a concurso 40 candidaturas, provenientes de 20 países.

O MCCB encontra-se instalado no centro da vila da Batalha e abriu as portas à comunidade no ano de 2011. Está organizado em cinco áreas temáticas que abrangem a Batalha de Aljubarrota, Geologia, Panteologia, Arqueologia, formação do território. O MCCB procura preservar, valorizar e divulgar o Património, impulsionando a Cultura da região onde se insere. 
O lema é "Museu de todos".

Mosaico Hipocampo, detalhe. Exposição permanente - "Passado"
Sistema de Pesos e Medidas. Exposição permanente - "Passado"
Telefone. Exposição permanente - "Passado"
Portal, Capelas imperfeitas. Exposição permanente - "Passado"

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Miguel Ângelo Lupi, distinto pintor do Romantismo

Miguel Ângelo Lupi, professor de Pintura Histórica, na Academia de Belas-Artes de Lisboa. Falecido em 26 de Fevereiro de 1883 (Segundo uma fotografia de Rochini) - Revista Occidente, Volume VI, Nº 153 de 21 de Março de 1883 - Hemeroteca Digital
Miguel Ângelo Lupi nasceu em Lisboa a 8 de Maio de 1826. O seu pai era italiano e a sua mãe portuguesa. Entrou para a Academia de Belas-Artes de Lisboa com 15 anos, onde foi aluno de Joaquim Rafael na aula de Desenho Histórico (1841 a 1843), tendo obtido dois prémios. Nos três anos seguintes foi discípulo de António Manuel da Fonseca na aula de Pintura Histórica. Após a conclusão do curso, escolheu a carreira de funcionário público - como garantia de sobrevivência - na Imprensa Nacional (1849-50), em Angola (1851-53) e no Tribunal de Contas (1855-59), não largando nunca o pincel e a paleta, resignando-se a trabalhar como simples amador de pintura.

Retrato de D. Pedro V de Portugal (1837-1861), óleo, 1860 - Palácio Nacional da Ajuda - Tribunal de Contas de Portugal
Estudo para o quadro D. João de Portugal (D. Madalena), carvão e giz sobre papel, 1862/1863 - Museu do Chiado/Museu Nacional de Arte Contemporânea
D. João de Portugal, óleo sobre tela, 1863 . Representa o final do 2º acto do drama Frei Luis de Sousa, de Almeida Garrett. (Prova de pensionista do Estado apresentada à Academia de Belas-Artes de Lisboa como candidato a Académico de Mérito, em 1863) - Museu do Chiado/Museu Nacional de Arte Contemporânea
Esboço para o quadro Egas Moniz perante o Rei de Leão - Revista Occidente, Volume VI, Nº 153 de 21 de Março de 1883 - Hemeroteca Digital
Em 1859, com 33 anos, foi convidado a realizar para o Tribunal de Contas de Lisboa, o retrato do rei D. Pedro V (1837-1961) - em cujo reinado foi aprovada a reforma do Tribunal de 1859 que consolidou a independência do Tribunal. Com a aprovação do rei e da Academia obtém uma pensão em Itália (1860-1863) para complemento da sua aprendizagem. Interessado no estudo de anatomia, do nu e do retrato, copia, em pequenos formatos, obras dos grandes mestres. Trabalha também a partir do modelo vivo, cenas e figuras locais, e esboça pequenas composições inspiradas em temas literários como a pintura histórica D. João de Portugal - prova de pensionista do Estado apresentada à Academia de Belas-Artes de Lisboa como candidato a Académico de Mérito, em 1863 - realizada em Roma. 

Camponesa do Minho em traje regional, pena a tinta sépia, 1871. (Fotog. Miguel Soares, 2001) - Museu Nacional de Arte Antiga
Retrato de António Feliciano de Castilho, óleo sobre tela, 1873 - Museu do Chiado/Museu Nacional de Arte Contemporânea

Retrato da Marquesa de Belas, óleo sobre tela, 1874 (Obra classificada como interesse nacional. Legislação aplicável: Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro) - Museu do Chiado/Museu Nacional de Arte Contemporânea
Aguadeira de Coimbra, óleo sobre tela, 1879 - Museu do Chiado/Museu Nacional de Arte Contemporânea
Em 1864, no regresso de Roma  visitou Paris, o que contribuiu para a sua formação como pintor. Chegado a Lisboa foi nomeado Académico de Mérito e professor de Desenho de Figura da Academia de Belas Artes de Lisboa, e em 1868 professor interino de Pintura de História, cargo que exerceu até à sua morte. Lupi tornou-se o artista predilecto do público. Nas exposições da Sociedade Promotora de Belas Artes de 1863 e 1864, os visitantes agrupavam-se de preferência na frente dos seus quadros. 

Camponesa, aguarela sobre papel, 1875 - Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves
Besteiro, aguarela sobre papel, 1861-1863 - Museu do Chiado/Museu Nacional de Arte Contemporânea
Os pretos de Serpa Pinto, óleo sobre tela, 1879 - Museu do Chiado/Museu Nacional de Arte Contemporânea
A partida de Vasco da Gama para a Índia, óleo sobre tela, 1880 - Museu do Chiado/Museu Nacional de Arte Contemporânea
É na vasta obra de retratista que ao longo da década de 70 e início dos anos 80 se notabiliza como percursor do Naturalismo em Portugal, realizando algumas obras admiráveis da pintura portuguesa de Oitocentos, como o Retrato de António Feliciano de Castilho, 1873; A Mãe do Dr. Sousa Martins e A Marquesa de Belas, 1874; Os pretos de Serpa Pinto e Aguadeira de Coimbra, 1879; O Duque de Ávila e Bolama, 1880. Alguns dos seus melhores retratos encontram-se no Museu do Chiado/Museu Nacional de Arte Contemporânea em Lisboa. Por encomenda dos Paços do Concelho de Lisboa (CML) realizou a obra O Marquês de Pombal na reconstrução da cidade, em que o Marquês está rodeado pelos seus colaboradores, observando a planta que lhe é apresentada.   Consciente da necessidade de remodelar o ensino na Academia, publicou “Indicações para a Reforma da Academia Real de Belas Artes de Lisboa” (1879).

Retrato do Duque de Ávila e Bolama, óleo sobre tela, 1880 - Museu do Chiado/Museu Nacional de Arte Contemporânea
Retrato do poeta Raimundo Bulhão Pato, óleo sobre tela, 1880/1882 - Museu do Chiado/Museu Nacional de Arte Contemporânea
Estudo para o quadro O Marquês de Pombal. (Lisboa e o Marquês de Pombal, CML 1982, Museu da Cidade)
Estudo para o quadro O Marquês de Pombal (O duque de Lafões. No quadro final (CML) está sentado à direita do Marquês de Pombal), óleo sobre cartão, 1881/1883 - Museu do Chiado/Museu Nacional de Arte Contemporânea
Premiado com a medalha de 1ª classe na Exposição Internacional de Madrid em 1871, expôs na Exposição Universal de Paris de 1867; Internacional de Londres de 1868; Salão de Paris de 1872; Internacional de Paris de 1878 e na do Rio de Janeiro de 1879. Participou na exposição da Promotora de 1863 a 1868. Após a sua morte a 26 de Fevereiro de 1883, Pinheiro Chagas publicou no Occidente (volume VI, 1883) uma extensa biografia do pintor. Ainda em 1883, os discípulos realizaram uma homenagem póstuma, com uma exposição retrospectiva da sua obra na Academia de Belas-Artes de Lisboa.

Quadro O Marquês de Pombal (?? parece-me ser). Gabinete do presidente CML, 2008 - Sipa Foto

Fontes:
http://www.matriznet.imc-ip.pt/MatrizNet/Entidades/EntidadesConsultar.aspx?IdReg=68206
http://www.infopedia.pt/$miguel-angelo-lupi
http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/Default.aspx


sexta-feira, 10 de maio de 2013

100º aniversário do actor João Villaret

João Villaret, fotografia (positivo p/b, 17,5  x 11,5 cm), séc. XX - Museu Nacional do Teatro

João Henrique Pereira Villaret (Lisboa, 10 de Maio de 1913 — Lisboa, 21 de Janeiro de 1961) foi um actor, encenador e declamador português. Era filho de Frederico Villaret e de Josefina Gouveia da Silva Pereira Villaret.


Bilhete de identidade de João Villaret (15 anos), emitido em 10 de Setembro de 1928, pelo Arquivo de Identificação de Lisboa (vista parcial) - Museu Nacional do Teatro

Bilhete de identidade de João Villaret (30 anos), emitido em 8 de Maio de 1944, pelo Arquivo de Identificação de Lisboa (vista parcial) - Museu Nacional do Teatro
Após frequentar o Conservatório Nacional de Lisboa, João Villaret dedicou-se ao teatro, onde integrou o elenco da Companhia de Teatro Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro (Lisboa), em 1931. Progressivamente ganhou fama como declamador. Em 1941, quando enveredou pelo teatro de revista, provocou algum escândalo, mas, com os êxitos sucessivos provou ser possível conciliar o género dramático e o de revista. A mais popular de todas terá sido Tá Bem Ou Não 'Tá? (1947), onde popularizou o célebre Fado Falado, da autoria de Aníbal Nazaré e Nélson de Barros. Este género de poesia ganhou enorme popularidade, especialmente depois de A Vida É Um Corridinho (1952) ou o famoso A Procissão (1955), da autoria de António Lopes Ribeiro.

João Villaret e Raul de Carvalho, fotografia (positivo p/b,18 x 24 cm). Cena do 1º acto da peça em 3 actos de Alfredo Cortez, "Tá Mar", levada à cena pela Cª Rey Colaço Robles Monteiro no Teatro Nacional Almeida Garrett na temporada 1935-1936 (estreia a 11 de Janeiro de 1936). Encenação de Robles Monteiro, cenários de Abilio de Mattos e Silva - Museu Nacional do Teatro
Maquete de cenário da peça "Tá Mar" (2º acto), guache sobre papel (36,6 x 29,6 cm), 1936. Cenário de Abílio de Mattos e Silva - Museu Nacional do Teatro
Maquete de cenário da peça "Tá Mar" (1º e 3º actos), guache sobre papel (39,5 x 32,7 cm), 1936. Cenário de Abílio de Mattos e Silva - Museu Nacional do Teatro

Figurino para "Rabanete" (João Villaret), guache sobre papel (17,7 x 12,5 cm), 1938. Figurino de José Barbosa, para a peça "Pimpinela" de Pereira Coelho e Norberto Lopes.  Levada à cena pela Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro no Teatro Nacional de Almeida Garret, em 1938 - Museu Nacional do Teatro
A poesia, particularmente a de Cesário Verde, era uma das suas grandes paixões, tendo ficado famosas as suas tertúlias no Café Brasileira. De entre as suas peças mais célebres, destacam-se A Recompensa (1937), de Ramada Curto, A Madrinha de Charley (1938), de Brandon Thomas, Três Espelhos, de Ladislao Vadja (1947), onde representa Moisés, o inspector, Melodias de Lisboa (1955), da sua autoria, Esta Noite Choveu Prata (1954) de Pedro Bloch. Das suas interpretações cinematográficas, destacam-se em O Pai Tirano (1941), de António Lopes Ribeiro, numa breve aparição como pedinte mudo, Inês de Castro (1945), de Leitão de Barros, onde representa Martin, o bobo, Camões (1946), de Leitão de Barros, e aquela que terá sido a sua melhor interpretação de sempre em cinema, a de Telmo Pais (criado), em Frei Luís de Sousa (1950), de António Lopes Ribeiro. O seu último papel foi o de Sebastião, em O Primo Basílio (1959), de António Lopes Ribeiro. 
João Villaret e Igrejas Caeiro, foto de Teixeira (23 x 17 cm). Cena da peça "Rosa Enjeitada" de D. João da Câmara, levada à cena pelos Comediantes de Lisboa / Teatro da Trindade - Museu Nacional do Teatro - Opsis
 
Figurino para "Malacueco" (João Villaret), desenho e pintura sobre papel (50,5 x 34,9 cm), 1944. Figurino de Frederico George, para a peça "Rosa Enjeitada" - Museu Nacional dom Teatro - Opsis

Maquete de cenário da peça "Rosa Enjeitada" (1º acto), guache sobre cartolina (50 x 30 cm), 1944. Cenário de Frederico George - Museu Nacional do Teatro - Opsis
João Villaret, Lucília Simões, Assis Pacheco e António Silva, foto de Teixeira (23 x 26 cm). Cena da peça "Pigmaleão" de Bernard Shaw, pelos Comediantes de Lisboa, 1945. Estreou no Teatro da Trindade e posteriormente foi apresentada no Teatro Sá da Bandeira no Porto - Museu Nacional do Teatro - Opsis.

João Villaret, foto (8,6 x 11,6 cm)  da peça "Se o Rei fosse uma Opereta", pelos Comediantes de Lisboa / Teatro Trindade - Museu Nacional do Teatro - Opsis
Para além de encenador e actor, João Villaret criou um programa semanal na televisão portuguesa, onde declamava poesia. A sua carreira prosseguiu no Rio de Janeiro, onde representou o papel de Cardeal Gonzaga na peça A Ceia dos Cardeais, levada à cena no Teatro Municipal do Rio de Janeiro (Brasil) em 1957. Recebeu o Prémio Eduardo Brazão pela sua interpretação em "Patate" (1959) e o grau de Oficial da Ordem Brasileira do Cruzeiro do Sul. A 2 de Abril de 1960, foi feito Oficial da Ordem Militar de Sant'lago da Espada. Retirou-se dos palcos em 1960, devido a doença prolongada, tendo falecido no ano seguinte com 48 anos de idade. A sua morte causou manifestações de grande pesar em Lisboa. Em sua homenagem, Raul Solnado fundou, em 1965, o Teatro Villaret. O seu nome, foi atribuído a uma escola no concelho de Loures.

Folheto publicitário do filme "Três Espelhos" de Ladislau Vadja, litografia (33,3 x 23,8 cm), 1947.Lisboa Filme e Peninsular Films / Teatro da Trindade - Museu Nacional do Teatro
Programa do filme " Três Espelhos", de Ladislau Vadja, litografia (22,7 x 16 cm), 1947. Fernando Lemos. Lisboa Filmes e Peninsular Films - Museu do Teatro

João Villaret, caracterizado para o papel de Telmo Pais, no filme "Frei Luis de Sousa", fotografia ( positivo p/b 23 x 17 cm). Estreou no cinema S. Jorge em 1950 - Museu Nacional do Teatro
João Villaret no papel de Cardeal Gonzaga, na peça "A Ceia dos Cardeais", fotografia (positivo p/b 23 x 17 cm), 1957. T. Municipal do Rio de Janeiro - Museu Nacional do Teatro
 
Fotografia de Palmira Bastos a homenagear João Villaret, numa festa em sua homenagem realizada em 1960 no Teatro São Luis - Museu Nacional do Teatro

FADO FALADO
Aníbal Nazaré; Nelson de Barros

Fado Triste
Fado negro das vielas
Onde a noite quando passa
Leva mais tempo a passar
Ouve-se a voz
Voz inspirada de uma raça
Que mundo em fora nos levou
Pelo azul do mar
Se o fado se canta e chora
Também se pode falar

Mãos doloridas na guitarra
que desgarra dor bizarra
Mãos insofridas, mãos plangentes
Mãos frementes e impacientes
Mãos desoladas e sombrias
Desgraçadas, doentias
Quando à traição, ciume e morte
E um coração a bater forte

Uma história bem singela
Bairro antigo, uma viela
Um marinheiro gingão
E a Emília cigarreira
Que ainda tinha mais virtude
Que a própria Rosa Maria
Em dia de procissão
Da Senhora da Saúde

Os beijos que ele lhe dava
Trazia-os ele de longe
Trazia-os ele do mar
Eram bravios e salgados
E ao regressar à tardinha
O mulherio tagarela
De todo o bairro de Alfama
Cochichava em segredinho
Que os sapatos dele e dela
Dormiam muito juntinhos
Debaixo da mesma cama

Pela janela da Emília
Entrava a lua
E a guitarra
À esquina de uma rua gemia,
Dolente a soluçar.
E lá em casa:

Mãos amorosas na guitarra
Que desgarra dor bizarra
Mãos frementes de desejo
Impacientes como um beijo
Mãos de fado, de pecado
A guitarra a afagar
Como um corpo de mulher
Para o despir e para o beijar

Mas um dia,
Mas um dia santo Deus, ele não veio
Ela espera olhando a lua, meu Deus
Que sofrer aquele
O luar bate nas casas
O luar bate na rua
Mas não marca a sombra dele
Procurou como doida
E ao voltar da esquina
Viu ele acompanhado
Com outra ao lado, de braço dado
Gingão, feliz, levião
Um ar fadista e bizarro
Um cravo atrás da orelha
E preso à boca vermelha
O que resta de um cigarro
Lume e cinza na viela,
Ela vê, que homem aquele
O lume no peito dela
A cinza no olhar dele

E o ciume chegou como lume
Queimou, o seu peito a sangrar
Foi como vento que veio
Labareda atear, a fogueira aumentar
Foi a visão infernal
A imagem do mal que no bairro surgiu
Foi o amor que jurou
Que jurou e mentiu
Correm vertigens num grito
Direito ou maldito que há-de perder
Puxa a navalha, canalha
Não há quem te valha
Tu tens de morrer
Há alarido na viela
Que mulher aquela
Que paixão a sua
E cai um corpo sangrando
Nas pedras da rua

Mãos carinhosas, generosas
Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem
e entendem sua dor
Mãos que não mentem
Quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam
Mas que sabem perdoar

E pouco a pouco o amor regressou
Como lume queimou
Essas bocas febris
Foi um amor que voltou
E a desgraça trocou
Para ser mais feliz
Foi uma luz renascida
Um sonho, uma vida
De novo a surgir
Foi um amor que voltou
Que voltou a sorrir

Há gargalhadas no ar
E o sol a vibrar
Tem gritos de cor
Há alegria na viela
E em cada janela
Renasce uma flor
Veio o perdão e depois
Felizes os dois
Lá vão lado a lado
E digam lá se pode ou não
Falar-se o fado.


Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Villaret
http://www.infopedia.pt/$joao-villaret
http://www.matriznet.imc-ip.pt/MatrizNet/Apresentacao.aspx