segunda-feira, 15 de julho de 2013

Louça de Caldas da Rainha, século XIX

Garrafa, peça moldada e modelada em barro vermelho, 1820-1853. Ceramista Maria dos Cacos. Atr. Oficina Maria dos Cacos - Museu da Cerâmica
Caldas da Rainha, centro cerâmico nos últimos 150 anos, tem tradição de actividade barrista, com possível origem na Idade Média. 
A vila originariamente chamada de Caldas de Óbidos, desenvolveu-se em torno do hospital termal - mandado construir por D. Leonor, esposa do rei D. João II (1481-1495).
Os mestres e fabricantes das Caldas da Rainha, do século XIX, alguns deles representados actualmente em museus, dirigiam pequenas indústrias de produção cerâmica, dispondo em feiras e mercados de todo o país, as suas peças de barro. 
A louça das Caldas, um género de faiança essencialmente decorativa, evoluiu ao longo dos tempos, caracterizando-se sobretudo pelos motivos naturalistas.

Travessa, peça  moldada e modelada em barro branco, 1860. Ceramista Manuel Cipriano Gomes Mafra. Fábrica Manuel Cipriano Gomes "Mafra" - Museu da Cerâmica
Marca gravada na pasta na base da peça, M. MAFRA/CALDAS/PORTUGAL (âncora)
   
Maria dos Cacos, barrista e feirante caldense, abriu uma oficina que laborou por cerca de 30 anos (1820-1853). As louças e peças decorativas que produzia, gozavam de grande popularidade nas feiras de todo país. A oficina dos Cacos seria a "impulsionadora" do centro de cerâmica das Caldas. Em 1950, Manuel Cipriano Gomes (1829-1905), natural de Mafra, inicia o ofício de ceramista na oficina de Maria dos Cacos. Ainda na fábrica da oleira, em 1852, contacta com D. Fernando II, quando este visita as olarias das Caldas da Rainha. Assume a fábrica de Maria dos Cacos, em 1853, adopta o sobrenome "Mafra", e enceta o seu percurso como ceramista, com o apoio da sua família. 
No ano de 1860, Manuel Mafra fundou uma fábrica com o seu nome, assinando as peças com as iniciais MCM. Posteriormente, viria a utilizar as marcas M.C.G., MCGM e M. MAFRA/CALDAS/PORTUGAL (âncora). Estavam lançadas as bases para a indústria cerâmica local. 
Ao longo de toda a sua carreira, Manuel Mafra adoptou o estilo do ceramista francês da Renascença, Bernardo Palissy (1510-1589). O sucesso foi grande, o estilo popularizou-se e foi copiado por muitos dos ceramistas caldenses do século XIX. Além dos elementos característicos deste estilo, cobras e lagartos, Manuel Mafra adicionou outros elementos tradicionais de Palissy, como conchas, peixes, lagostas, sapos, fauna e flora locais. Incorporou um novo elemento ao design tradicional, o musgo ou musgado, recorrendo a uma tecnica egípcia com mais de 2000 mil anos. Os seus esmaltes foram também muito apreciados pela qualidade técnica, comparada aos melhores artesãos de todo o mundo.
Depois de 1870, D. Fernando II dá à fábrica o titulo de Real Fornecedor do Rei, e concede autorização para o uso da coroa real na marca, dando origem a M. MAFRA/CALDAS/PORTUGAL (coroa). Manuel Mafra participou em diversas exposições e foi premiado em 1878, 1873 e 1879. Em 1881, foi considerado o “Palissy das Caldas”, pelo Inquérito Industrial. Em 1890 o recheio da fábrica foi leiloado e adquirido por Herculano Elias.
 
Bilha de Segredo, peça rodada e moldada em barro branco, 1870-1887. Ceramista Manuel Cipriano Gomes Mafra. Fábrica Manuel Cipriano Gomes Mafra - Museu da Cerâmica
Marca gravada na pasta, M.MAFRA/CALDAS/PORTUGAL (coroa), no reverso da base

Canjirão, faiança vidrada, 1870-1887. Ceramista Manuel Cipriano Gomes Mafra. Toda a superfície da peça é decorada com musgados  - Museu da Cerâmica
Marca gravada na pasta, M.MAFRA/CALDAS/PORTUGAL (coroa)
Jarrão, peça moldada e modelada em barro branco, 1870-1887. Ceramista Manuel Cipriano Gomes Mafra. Fábrica Manuel Cipriano Gomes Mafra. Esta peça executada por Manuel Cipriano Gomes Mafra, traduz o estilo de Bernard Palissy, ceramista francês da Renascença - Museu da Cerâmica
Prato, peça rodada e moldada em barro vermelho, 1888. Ceramista Manuel Cipriano Gomes Mafra, Caldas da Rainha. Esta peça executada por Manuel Cipriano Gomes Mafra, denota a influência de Bernard Palissy, ceramista francês da Renascença - Museu da Cerâmica
Marca gravada na pasta, M.MAFRA/CALDAS/PORTUGAL (coroa), no reverso da base
Assinatura, peças de Manuel Cipriano Gomes Mafra (fase inicial de fabrico)
 



Marca, MCGM (âncora), peças de Manuel Cipriano Gomes Mafra


Marca, M. MAFRA/CALDAS/PORTUGAL (âncora), peças de Manuel Cipriano Gomes Mafra 
Marca, M.MAFRA/CALDAS/PORTUGAL (coroa), peças posteriores a 1870, de Manuel Cipriano Gomes Mafra

José Francisco de Sousa (1835-1907), outro ceramista ilustre, foi mais um seguidor da tradição de Palissy. Iniciou a sua actividade em 1860, numa oficina adquirida ao ceramista António de Sousa Liso. A notável produção de faiança artística da oficina de José Sousa, é reconhecida pela paleta de cores diversificada e qualidade artística, colocando-o entre os melhores ceramistas das Caldas. 
O ceramista Francisco Gomes de Avelar (1850-1918), conceituado artífice, fundou a sua fábrica em 1875, rodeando-se dos melhores operários da época. Destacou-se de entre os seus pares, recriando o famoso azul de Sévres através do uso de óxido de cobalto. A sua fábrica que laborou durante 22 anos, foi premiada em diversas exposições. Uma das personalidades mais marcantes desta época, o ceramista Rafael Bordalo Pinheiro, principia experiências com argilas e esmaltes, na fábrica de Francisco Gomes Avelar. 

Jarra, peça moldada e modelada em barro branco, 1863-1890. Ceramista José Francisco de Sousa. Fábrica de José Francisco de Sousa - Museu da Cerâmica

Canjirão, peça moldada e modelada em barro vidrado, 1860-1907. Ceramista José Francisco de Sousa. Fábrica de José Francisco de Sousa - Museu da Cerâmica

Marca gravada na pasta, JFS, José Francisco de Sousa
Serviço de chá, peças moldadas em barro vidrado, 1875-1897. Ceramista Francisco Gomes Avelar. Fábrica de Francisco Gomes Avelar - Museu da Cerâmica
Prato D. Maria Pia, faiança moldada, séc. XIX. Ceramista Francisco Gomes Avelar. Fábrica de Francisco Gomes Avelar - Museu da Cerâmica
Marca inserida numa elipse, F. Gomes Avelar/Caldas da Rainha, gravada na pasta no reverso da peça
Como seguidores do ceramista Manuel Mafra, destacam-se António Alves da Cunha (1856-1941) e José Alves da Cunha (1849-1901). O primeiro, com elevada qualidade de produção. Era especialista na execução de flores realizadas manualmente em barro. O segundo, representado em diversas exposições internacionais, viu o seu trabalho distinguido com diversas medalhas e menções honrosas. Foi também um notável seguidor de Bernardo Palissy.


Jarro, peça moldada e modelada em barro branco, 1902-1925. Ceramista António Alves da Cunha. Fábrica de António Alves da Cunha - Museu da Cerâmica
Galo, floreira, peça moldada e modelada em barro branco, 1902-1925. Ceramista António Alves da Cunha. Fábrica de António Alves da Cunha - Museu da Cerâmica
Jarro, peça moldada e modelada em barro vermelho,  1902-1925. Ceramista António Alves da Cunha. Fábrica de António Alves da Cunha - Museu da Cerâmica

 
Jarrão, peça moldada e modelada em barro vidrado, 1862-1901(influência de Manuel Mafra e Bernardo Palissy). Ceramista José Alves Cunha. Fábrica de José Alves da Cunha - Museu da Cerâmica

Prato, peça moldada e modelada em barro branco, 1913. Ceramista José Alves Cunha. Fábrica de José Alves da Cunha - Museu da Cerâmica
Marca inserida numa elipse, José A. Cunha/Caldas da Rainha/ Portugal, gravada na pasta no reverso da base
O Vira, peça moldada e modelada em barro vermelho, 1913. Ceramista José Alves Cunha. Fábrica de José Alves da Cunha - Museu da Cerâmica
Inscrição em relevo na base da peça

Prato, peça rodada e moldada em barro vermelho, 1884-1939. Ceramista Herculano Elias. Oficina de Herculano Elias - Museu da Cerâmica
Marca, H. Elias/Caldas da Rainha, carimbada na pasta no reverso da peça



Fontes:
http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Apresentacao.aspx
http://www.cm-caldas-rainha.pt/portal/page/portal/PORTAL_MCR/VISITANTE/TRADICAO/LOUCA_CALDAS
http://lazer.publico.pt/passeiosepercursos/76199_caldas-da-rainha-a-cidade-da-louca
http://www.palissy.com

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O património da cidade de Coimbra no olhar dos artistas

Igreja de Santa Cruz, Coimbra, aguarela sobre papel, séc. XX. Autor: António Vitorino (1891-1972) - Museu José Malhoa
O bem "Universidade Coimbra, Alta e Sofia", proposto por Portugal, foi classificado no dia 22 de Junho de 2013, Património Mundial de Humanidade. A classificação foi atribuída pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

A área classificada situa-se no centro histórico da cidade de Coimbra, e abrange duas zonas, uma na encosta da cidade, a Alta, e a outra na Baixa da cidade, a Sofia. Para além da Universidade de Coimbra, existem dois monumentos nacionais incluídos, o Mosteiro de Santa Cruz e a Sé Velha ou Catedral, por estarem dentro da área classificada.

A romântica cidade de Coimbra, situada às margens do rio Mondego, também conhecido pelo "rio dos poetas", foi fonte de inspiração para músicos, escritores, poetas e artistas. Os amores trágicos de D. Pedro e Inês de Castro, passados nas paisagens verdejantes de Santa Clara, ficarão para sempre ligados à Quinta das Lágrimas.

Vista da Alta de Coimbra através das árvores, óleo sobre madeira, 1953. Autor: Pinho Diniz (1921-2007) - Museu do Chiado /Museu Nacional de Arte Contemporânea
Antigo Convento de Santa Clara, Coimbra, aguarela sobre papel, colado em cartão, 1939.  Autor: António Vitorino (1891-1972) - Museu do Chiado /Museu Nacional de Arte Contemporânea
Claustro da Sé-Velha, Coimbra, óleo sobre madeira, 1926. Autor: António Teixeira Carneiro Júnior (1872-1930) - Museu Grão Vasco
Sé-Velha, Coimbra, aguarela sobre papel, 1927. Autor: Alberto de Souza (1880-1961) - Museu José Malhoa
Claustro do Mosteiro de Celas, óleo sobre tela, 1875-1898. Pintor João Rodrigues Vieira (1856-1898) - Museu Nacional Machado de Castro
Trecho do Jardim de Santa Cruz, Coimbra, óleo sobre tela, 1884. Autor: João Rodrigues Vieira (1856-1898) - Museu do Chiado / Museu Nacional de Arte Contemporânea
Fonte dos Amores, Quinta das Lágrimas, óleo sobre tela, 1871. Autor: João Cristino da Silva (1829-1877) - Museu do Chiado /Museu Nacional de Arte Contemporânea
Campos do Mondego, óleo sobre platex, séc. XX. Autor: Hebil (1913-1998) - Museu Francisco Tavares Proença Júnior

"As filhas do Mondego, a morte escura
Longo tempo chorando memoraram
E por memória eterna em fonte pura
As Lágrimas choradas transformaram
O nome lhe puseram que ainda dura
Dos amores de Inês que ali passaram
Vede que fresca fonte rega as flores
Que as Lágrimas são água e o nome amores"

Luís de Camões
Estrofe 135 do canto III de Os Lusíadas (encontra-se gravada numa lápide colocada junto da Fonte das Lágrimas, Quinta das Lágrimas)

Vista parcial da cidade de Coimbra, com a Sé-Velha em 1º plano, cartaz de publicidade, ca. 1935 (Empresa Bolhão). Design, António Vitorino (1891-1972)- BNP
Capiteis das naves da Sé Velha de Coimbra, lápis e giz branco sobre papel, séc. XIX-XX. Autoria: António Augusto Gonçalves (1848-1932) - Museu Nacional Machado de Castro

Adeus Sé Velha (com vídeo)

Adeus Sé Velha saudosa
Com guitarras a rezar

Minh'alma parte chorosa
No dia em que te deixar

O adeus da despedida
Não dura mais que um minuto

Mas fica na minha vida
Como cem anos de luto

Letra: Carlos Figueiredo
Música: Fernando Quintela



Saudades de Coimbra ou Do Choupal até à Lapa (com vídeo)

Do Choupal até à Lapa
Foi Coimbra, os meus amores
A sombra da minha capa
Deu no chão, abriu em flores 

Ó Coimbra do Mondego
E dos amores que eu lá tive
Quem te não viu, anda cego
Quem te não ama, não vive

Letra: António de Sousa
Música: Mário Faria da Fonseca
Repertório: Edmundo Bettencourt
Interpretação: Zeca Afonso


http://pt.wikipedia.org/wiki/Quinta_das_L%C3%A1grimas
http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=3284913
http://www.cm-coimbra.pt/

Reformulado no dia 18 de Dezembro de 2013

terça-feira, 25 de junho de 2013

Estátua egípcia roda sozinha 180º

Estátua do Antigo Egipto, encontra-se no Museu de Manchester, nos Estados Unidos, há mais de 80 anos (modifiquei a foto digitalmente, para assinalar a estátua com uma linha curva fechada). - Sábado.pt
No Museu de Manchester, nos Estados Unidos, a estátua de um homem chamado Neb-Senu, encontra-se em exibição há mais de 80 anos. A relíquia foi uma oferta ao deus egípcio Osíris, o deus dos mortos. Tudo decorria com normalidade, até ao dia em que os trabalhadores do museu, verificaram que a estátua aparecia virada ao contrário. A estátua está num armário fechado. A única pessoa que tem a chave, o egiptólogo Campbell Price, afirmou que a colocava direita, mas no dia seguinte ela estava virada ao contrário.

Decidiram montar câmaras de video e aguardar. Viram então, a estátua a girar sozinha, num circulo perfeito, 180º. Vários cientistas já se pronunciaram sobre o fenómeno, avançando com explicações racionais, mas, a parte sobrenatural não ficou excluída.

A estátua esteve sempre no mesmo local dentro do museu e nunca se moveu até agora. Veja o vídeo e a notícia completa, Sábado.pt


A estátua egípcia gira num circulo perfeito, sem que ninguém lhe toque (modifiquei a foto digitalmente, para assinalar a estátua com uma linha curva fechada).   Sábado.pt

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Evocar Fernando Pessoa no seu 125º aniversário

Fernando Pessoa, 1914

Fernando António Nogueira Pessoa, foi um dos maiores poetas da Língua Portuguesa. Nasceu a 13 de Junho de 1888, no Largo de São Carlos, em Lisboa. O pai, Joaquim de Seabra Pessoa, natural de Lisboa, para além de funcionário público, era crítico musical no Diário de Notícias. A mãe, Maria Madalena Pinheiro Nogueira, natural dos Açores (Ilha Terceira), beneficiou de uma refinada educação. 
O baptismo de Fernando Pessoa, foi celebrado na Igreja dos Mártires (Chiado), no dia 21 de Julho de 1888. A escolha do nome homenageia Santo António, nome de baptismo Fernando de Bulhões, festejado em Lisboa a 13 de Junho - no poema "Praça da Figueira", o poeta fala sobre "o meu santo".

"Santo António"

Nasci exactamente no teu dia -
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante. . . Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo. 
...............................................
...................................................

Fernando Pessoa

Praça da Figueira
09-06-1935 (aqui, Casa Fernando Pessoa)

Retrato de Fernando Pessoa, óleo sobre tela, 1964. Pintura José de Almada Negreiros - FCG, Centro de Arte Moderna, Lisboa
O pai faleceu em 1893, com 43 anos, vítima de tuberculose. Fernando tinha apenas cinco anos - a primeira quadra "À minha mamã", foi escrita aos sete anos de idade. Em 1895, dois anos após o falecimento do seu pai, a mãe casou-se pela segunda vez, por procuração, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, África do Sul. Em razão do casamento, Pessoa viajou com a mãe para Durban, no ano seguinte. Em África, onde passou a maior parte da juventude (1896-1905) e fez os seus estudos em escolas inglesas (High School), Pessoa viria a receber o Prémio Rainha Victoria, em 1904.

"À minha mamã"

Eis-me aqui em Portugal
Nas terras onde eu nasci
Por muito que goste delas
Ainda gosto mais de ti. 

Fernando Pessoa
26-07-1895 (aqui, Casa Fernando Pessoa)


Heterónimos de Fernando Pessoa: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Desenhos de José de Almada Negreiros. Pormenor da fachada gravada da Faculdade de Letras da U.C.L., 1957-61. França, J. Augusto (1974), Almada o Português Sem Mestre. Lisboa: Estúdios Cor.
Pessoa regressou a Lisboa em Agosto de 1905, para frequentar o curso Superior de Letras da Universidade de Lisboa, vindo a abandoná-lo sem realizar um único exame. Frequentou a Biblioteca Nacional, onde leu livros de literatura, sociologia, filosofia, religião, a fim de aperfeiçoar a sua cultura e estudar a Lingua Portuguesa. Desde muito jovem, os seus textos e poemas eram escritos em inglês, devido à sua educação. Por volta de 1910, já escrevia muito em Português. Fernando Pessoa traduziu diversas obras portuguesas para inglês, de autores como António Botto e Almada Negreiros. 
Ao longo da sua vida, trabalhou fazendo traduções e redacções de cartas em inglês e francês, para firmas portuguesas com negócios no estrangeiro.

"Meia-Noite"
As louras e pálidas crianças
—Dlon...
Desprendem a chorar suas tranças
— Dlon...
Quem nos dirá donde é esse pranto
—Dlon...
Sabê-lo tirar-lhe-ia o encanto
—Dlon...
Que fique sempre como elas vago
—Dlon...
Folha caída à tona do lago
—Dlon...
Que nos inspire e o não percebamos
— Dlon...
Que só se sinta em nós que o amamos
—Dlon...
Que seja para nós som de fonte
— Dlon...
Que seja o mistério do horizonte
—Dlon...
Tristeza que dorme em vale e monte
Dlon...
Tristeza vaga, dor, vago som
Dlon...
Fernando Pessoa
15-02-1912 (aqui, Casa Fernando Pessoa)


Fernando Pessoa Não-Ele-Mesmo, óleo sobre tela, 1976. Pintura de António Costa Pinheiro. Colecção do artista. Foto de Manuel Shnell -  Pinto e Almeida, Bernardo (2005), Costa Pinheiro. Lisboa: Caminho. Edimprensa: Paço de Arcos.

Fernando Pessoa era reservado e solitário por natureza, no entanto, manteve convívio com algumas das mais notáveis figuras da literatura portuguesa. Frequentava os cafés "A Brasileira" e o "Martinho da Arcada", onde se encontrava com os amigos, como Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor e Almada Negreiros. Respeitado como intelectual e como poeta, publicou regularmente a sua obra literária em verso e em prosa. Publicou "35 Sonnets" (em inglês), 1918; "English Poems I-II" e "English Poems III" (em inglês também), 1922. Entre 1912 e 1934, colaborou como ensaísta e crítico literário na revista A Águia, do Porto, dirigiu a revista literária Orpheu, lançou a revista Athena, colaborou na Contemporânea, na Presença, no Diário de Lisboa e no Tempo. O livro "Mensagem", 1934, foi premiado pelo "Secretariado de Propaganda Nacional" na categoria Poema. Fernando Pessoa foi um líder activo do modernismo em Portugal, inventando também outros movimentos de inspiração cubista e semi-futurista. 


"Gato que brincas na rua"
Gato que brincas na rua 
Como se fosse na cama, 
Invejo a sorte que é tua 
Porque nem sorte se chama.
 
Bom servo das leis fatais 
Que regem pedras e gentes, 
Que tens instintos gerais 
E sentes só o que sentes.
 
És feliz porque és assim, 
Todo o nada que és é teu. 
Eu vejo-me e estou sem mim, 
Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa
Janeiro de 1931 (aqui, Casa Fernando Pessoa)

Fernando Pessoa-Heterónimo, óleo sobre tela,1978. Pintura de António Costa Pinheiro - FCG, Centro de Arte Moderna, Lisboa
O Chapéu-Heterónimo do poeta Fernando Pessoa, óleo sobre tela, 1979-1980. Pintura de António Costa Pinheiro. Colecção do artista. Foto de Manuel Shnell -  Pinto e Almeida, Bernardo (2005), Costa Pinheiro. Lisboa: Caminho. Edimprensa: Paço de Arcos.
Óculos do Poeta Álvaro de Campos - Heterónimo de Fernando Pessoa, óleo sobre tela, 1980 - FCG, Centro de Arte Moderna, Lisboa
Em Novembro de 1919, Fernando Pessoa conheceu Ofélia Queiróz - que viria a ser sua namorada - na firma Félix, Valladas & Freitas, Lda., onde ambos trabalhavam.
Após a morte (1919) do segundo marido da mãe de Fernando Pessoa, esta regressa a Lisboa. A família vai morar para um andar alugado por Pessoa, na Rua Coelho da Rocha, nº 16  (hoje Casa Fernando Pessoa), em Lisboa, onde o poeta viveria até à sua morte. Depois de morar em quartos alugados, durante uma grande parte da sua vida, Pessoa teve a família reunida de novo - ele, a mãe, que morreu em 1925, a meia irmã e os dois meios irmãos.
 
 " Todas as cartas de amor são / Ridículas"


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor, 
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram 
Cartas de amor 
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia 
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje 
As minhas memórias 
Dessas cartas de amor 
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos
21-10-1935 (aqui, Casa Fernando Pessoa)

Fernando Pessoa, marcador e colagem sobre papel vegetal, 1983. Desenho de Júlio Pomar - FCG, Centro de Arte Moderna, Lisboa
Fernando Pessoa e Almada Negreiros, marcador sobre papel vegetal, 1983. Desenho de Júlio Pomar - FCG, Centro de Arte Moderna, Lisboa

O poeta Fernando Pessoa, água-forte e água-tinta sobre papel, 1984. Gravura de Bartolomeu Cid dos Santos. - FCG, Centro de Arte Moderna, Lisboa
No decorrer dos anos, Fernando Pessoa acumulou milhares de escritos, como, contos, traduções, poesia, peças de teatro, horóscopos, em Inglês, Português e Francês. Na sua escrita utilizou diferentes suportes, folhas soltas, cadernos, sobrescritos, panfletos... Ao longo da sua breve vida como poeta, Pessoa desdobrou-se em múltiplas personalidades poéticas - Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis - conhecidas como heterónimos, facultando-lhes personalidade, características físicas, opções políticas, profissão, biografia... 
No dia 21 de Outubro de 1935, escreve "Todas as cartas de amor são /Ridículas, último poema datado do seu heterónimo Álvaro de Campos.

"Há doenças piores que as doenças" 
 

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma,
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com o imaginá-las
Que são mais nossas do que a nossa vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós…
Por sobre o verdor turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas…
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.


Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.


Fernando Pessoa
19-11-1935 (aqui, Casa Fernando Pessoa)
Fernando Pessoa, mármore branco de Estremoz. Escultura de Francisco Simões - Parque dos Poetas, Oeiras

Sonho de Fernando Pessoa, Debaixo de uma Latada numa Tarde de Verão, tinta acrílica sobre tela, 1982. Pintura de António Dacosta - FCG, Centro de Arte Moderna, Lisboa

Fernando Pessoa, bronze, 2005. Escultura de Lagoa Henriques. Café "A Brasileira", Lisboa
Subitamente, na sequência de febres e dores abdominais, Fernando Pessoa foi internado no dia 29 de Novembro de 1935, no Hospital de São Luís dos Franceses, em Lisboa, sendo-lhe diagnosticada "cólica hepática". No seu último poema português datado, "Há doenças piores que as doenças», o verso final implora: «Dá-me mais vinho, porque a vida é nada». Morreu por volta das 20 horas, no dia 30 de Novembro, com 47 anos de idade, em presença do seu primo e médico, Jaime de Andrade Neves. As suas últimas palavras escritas foram: "I know not what tomorrow will bring" ("Não sei o que o amanhã trará"). Foi enterrado no cemitério dos Prazeres. O seu vasto legado literário, acumulado numa grande arca onde guardava os seus escritos, ainda não está completamente tratado pelos estudiosos.


"Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia"

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,  
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.   
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.  
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.  
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.    
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras; 
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento. 
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.  
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.  
Fechei os olhos e dormi.  
Além disso, fui o único poeta da Natureza
 
Alberto Caeiro (aqui Casa Fernando Pessoa)

Fernando Pessoa, painel de azulejos, 1990. Projecto do pintor Júlio Pomar. Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego. (Réplica de uma parte do revestimento da Estação de Metro de Alto dos Moinhos) - Museu Nacional do Azulejo
Mural Pessoa, tecido de algodão estampado, com um mural em azulejo representando o poeta Fernando Pessoa, e uma das suas frases: "Nós somos o tecido de que são feitos os sonhos". Padrão concebido para a decoração do Cacilheiro que a artista plástica Joana Vasconcelos transformou no pavilhão de Portugal, na Bienal de Veneza, 2013. - Vidal
Jaz morto e arrefece o menino de sua mãe, 1973, escultura de Clara Menéres - Dove's taste of the day

" O menino de sua mãe"

No plaino abandonado 
Que a morna brisa aquece, 
De balas traspassado — 
Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.
 
Raia-lhe a farda o sangue. 
De braços estendidos, 
Alvo, louro, exangue, 
Fita com olhar langue 
E cego os céus perdidos.
 
Tão jovem! que jovem era! 
(Agora que idade tem?) 
Filho único, a mãe lhe dera 
Um nome e o mantivera: 
"O menino da sua mãe".
 
Caiu-lhe da algibeira 
A cigarreira breve. 
Dera-lhe a mãe. Está inteira 
E boa a cigarreira. 
Ele é que já não serve.
 
De outra algibeira, alada 
Ponta a roçar o solo, 
A brancura embainhada 
De um lenço... Deu-lho a criada 
Velha que o trouxe ao colo.
 
Lá longe, em casa, há a prece: 
"Que volte cedo, e bem!" 
(Malhas que o Império tece!) 
Jaz morto, e apodrece, 
O menino da sua mãe


Fernando Pessoa
Maio de 1926 (aqui Casa Fernando Pessoa)


Vestido feminino,com retrato do poeta Fernando Pessoa , seda branca, vidrilhos pretos e lantejoulas pretas. Doação de José Carlos, 1986 - Museu Nacional do Traje e da Moda

Carta a Ofélia Queiroz - 23 de Maio de 1920
 

Meu Bebezinho pequeno:

Hoje, depois de passar na tua rua, e de te ver, voltei atrás para te perguntar uma coisa; mas tu não apareceste.

O que te queria perguntar era o que fazias amanhã, em vista da greve dos eléctricos, que naturalmente não dura só hoje. Não te dispões, com certeza a ir até Belém a pé? O melhor é escreveres para Belém ao dono da fábrica, explicando porque razão — aliás evidente — tu não vais. Além de ser uma distância enorme para qualquer pessoa, é impossível para ti, que não és forte.

Acabo de escrever este parágrafo, e lembro-me que há comboios para Belém. Irás de comboio, Bebé. E onde tomas o comboio — em Santos, no apeadeiro? Talvez te seja difícil encontrar lugar ali, pois muita gente irá do Cais do Sodré — a gente que de manhã costuma encher os carros que vão na direcção de Belém, e que te torna difícil arranjar lugar de manhã.

Não sei o que faça, Bebezinho. Já perguntei aqui no Café Arcada, de onde te estou escrevendo, mas não sabem as horas dos comboios da linha de Cascais, nem têm horário.

Não quereria deixar de te ver, mas também não queria (pois amanhã tenho muito que fazer) perder tempo inutilmente indo procurar-te ou esperar-te a qualquer ponto onde não estejas, ou por onde não passes.

Escreve-me amanhã dizendo qualquer coisa, mas não esquecendo que tenho os dias muito ocupados.

Seja como for, passo amanhã na tua rua, ou às 10 para as 10 1/4 da manhã, ou — o que é mais certo — às 7 1/2 da tarde .

Fica assim combinado, Bebé?

Isto, salvo complicações que haja e me impeçam de aparecer.

Muitos beijinhos do teu



 Fernando

Aqui, Casa Fernando Pessoa
 



Fontes:
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=2233
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa