sexta-feira, 3 de julho de 2015

Maria Barroso: uma vida intensa

Maria Barroso. Modas e Bordados, suplemento nº 1777 - 27 de Fevereiro de 1946 (arquivo "comjeitoearte")

Maria de Jesus Simões Barroso Soares (Olhão, 2 de Maio de 1925) viveu intensamente. Foi actriz, declamadora, professora, activista política e defensora dos Direitos Humanos. Entrou no curso de Arte Dramática do Conservatório Nacional com 15 anos de idade. Trabalhou afincadamente, terminou o curso do Conservatório e ingressou no teatro. No ano de 1944, estreia-se no Teatro Ginásio na peça Sua Excelência, o Ladrão. Neste mesmo ano, ingressa como actriz contratada na Companhia Rey Colaço - Robles Monteiro, sedeada no Teatro Nacional D. Maria II, onde representa o Auto da Pastora Perdida e da Velha Gaiteira. Aos vinte anos, inicia o curso de Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa, continuando, porém, a representar no Teatro Nacional durante quatro anos. É demitida do teatro por ordem da polícia, pelas suas posições políticas, no ano de 1948. Um ano depois, casa com Mário Soares, ele próprio um resistente ao Estado Novo. O seu primeiro filho, João Soares, nasce em 1949. Dois anos depois nasce a filha Isabel Soares.


Maria Barroso. Modas e Bordados, suplemento  nº 1872 - 24 de Dezembro de 1947 (arquivo "comjeitoearte")

Atravessou  as décadas de 40 a 70 do século  XX, do regime ditatorial do Estado Novo (1933-1974) à Revolução do 25 de Abril de 1974, fazendo oposição a Salazar e Marcelo Caetano, em defesa da liberdade, pelo que correu  sérios riscos. Com a democracia, foi eleita deputada à Assembleia da República, nas legislaturas entre 1976 e 1983. Enquanto Mulher do Presidente da República (1986-1996) - primeira-dama de Portugal -, empenhou-se na defesa da Paz, dos Direitos Humanos, da educação, família e mulheres. Desenvolveu actividades de apoio à  integração de deficientes e prevenção da violência.


Maria Barroso. Foto: Victor Freitas - Revista Caras

Nos últimos 17 anos, Maria Barroso continuou a dedicar-se a muitas causas humanitárias e a intervir activamente na vida cultural do nosso país, com a dedicação e força interior que sempre a caracterizou. É sócio-fundadora e presidente do Conselho de Administração da ONGD Pro Dignitate - Fundação de Direitos Humanos, desde 1994. Presidiu à Cruz Vermelha Portuguesa entre 1997 e 2003. Foi distinguida com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro (1996), pela Universidade de Lisboa (1999) e pelo Lesley College (1994). Recebeu diversos prémios e condecorações em Portugal e no estrangeiro, entre eles a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade de Portugal a 7 de Março de 1997 e a Grã-Cruz Honorária da ordem Real de Santa Isabel de Portugal a 3 de Julho de 2002. 


Maria Barroso no "Auto da Pastora Perdida". Modas e Bordados, suplemento nº 1777 - 27 de Fevereiro de 1946 (arquivo "comjeitoearte")

Nas entrevistas concedidas à revista “Modas e Bordados”  (1946 e 1947), Maria Barroso revela traços da sua personalidade e alguns conceitos de liberdade.

Na revista "Modas e Bordados", nº 1777 de 27 de Fevereiro de 1946, a jornalista Hortense Almeida escreve: 

Não se pode falar com Maria Barroso sem se simpatizar incondicionalmente com a artista. (...) Esta rapariga sai da generalidade das raparigas de hoje – mostra-se inteligente, sóbria, talentosa, culta e modesta. Estes cinco predicados raros, aliados ao amor pela arte, são o essencial para fazer dela uma grande actriz e uma actriz consciente.”
“Os nossos parabéns à artista e ao teatro português por contar nas suas fileiras com o nome de Maria Barroso, a sua inteligência, a sua sobriedade, o seu talento a sua cultura e a sua encantadora modéstia”. (Hortense Almeida, 1946 : 5 )

Modas e Bordados, suplemento nº 1777 - 27 de Fevereiro de 1946 (arquivo "comjeitoearte")
Modas e Bordados, suplemento  nº 1872 - 24 de Dezembro de 1947 (arquivo "comjeitoearte")

Questionada sobre a ambição de fazer o curso de letras, Maria Barroso responde:

MB - (...) "O curso interessa-me, tem-me interessado sempre como elemento de cultura, mas só como elemento de cultura. Entendo que o artista quanto mais culto melhor servirá a arte. Gosto de estudar e tenho estudado sempre com prazer, embora hoje reconheça que o curso não me dará a cultura desejada".  
(...) "Mas a verdade é unicamente uma - quem quiser ser culto não pense sê-lo só por ter debaixo do braço um diploma de qualquer curso superior".(Hortense Almeida, 1946 : 11 )

Peça Os Maridos Peraltas e as Mulheres Sagazes (1945), Cª Rey Colaço - Robles Monteiro, Teatro Nacional. D. Maria II. Foto de Horácio Novais. Fotografia de cena: Beatriz Santos (D.Beatriz) e Maria Barroso (D. Rozaura), entre elas e debruçada sobre as costas do sofá está a actriz Maria José (Columbina, criada) Museu Nacional do Teatro- Matriznet
Maquete de cenário para a peça Os Maridos Peraltas e as Mulheres Sagazes (1945). Guache sobre papel. Autor: Lucien Donnat. Cª Rey Colaço - Robles Monteiro, Teatro Nacional. D. Maria II - Museu Nacional do Teatro- Matriznet

No decorrer da entrevista, a jornalista pergunta-lhe o que pensa da mulher portuguesa. 

MB - “Podemos dividir a mulher portuguesa em dois grupos. Um, formado pelas meninas e senhoras “bibelot” – frívolas e inúteis – o outro constituído por aquelas que acharam o verdadeiro equilíbrio e o mantêm com dignidade e inteligência. O primeiro, infelizmente, representa a maioria – o segundo, para mal de todas nós, não passa de uma escassa e confrangedora minoria. 
A mulher é ainda, na maioria dos casos, um fantoche dócil nas mãos dos preconceitos, mas, um dia, ela saberá libertar-se das algemas de ouro, cravejadas de brilhantes com que as têm acorrentado à rotina...”
(Hortense Almeida, 1946 : 11 )

Peça Os Maridos Peraltas e as Mulheres Sagazes(1945), Cª Rey Colaço - Robles Monteiro, Teatro Nacional D. Maria II. Fotografia de cena, em palco: D. Beatriz (Beatriz Santos); Lélio, marido de D. Beatriz (Henrique Santos); Balestra, o criado (Pedro Lemos); Columbina, a criada (Maria José); Florindo, marido de D. Rozaura (Augusto Figueiredo) e D. Rozaura (Maria Barroso) - Museu Nacional do Teatro- Matriznet

Maquete de cenário para a peça Os Maridos Peraltas e as Mulheres Sagazes” (1945). Guache e tinta da china sobre papel. Autor: Lucien Donnat. Cª Rey Colaço - Robles Monteiro, Teatro Nacional. D. Maria II - Museu Nacional do Teatro- Matriznet

O tema “Benilde ou a Virgem Mãe”, drama em 3 actos de José Régio, subiu à cena do Teatro D. Maria II, no dia 23 de Novembro de 1947. 

Na revista "Modas e Bordados", nº 1872 de 24 de Dezembro de 1947, a jornalista Maria Estrela Monteiro escreve: 

(...)"Foi Maria Barroso, uma jovem actriz que tanto nos promete, quem interpretou extraordinariamente bem, o arrojado papel de Benilde. Ela soube dar a justa medida, tão necessária na interpretação teatral e muito em especial quando se trata de peças no estilo desta de José Régio.
 “Maria Barroso é uma rapariguinha simples, despreocupada de qualquer vaidade, em suma, uma aluna do 4º ano de História e Filosofia. Possuidora de uma sólida e vasta cultura, ela dá às peças que interpreta, a par com o seu talento, a segurança de quem sabe o que está a fazer”. (Maria Estrela Monteiro, 1947: 4)

Peça "Benilde ou a Virgem Mãe"(1947) Cª Rey Colaço - Robles Monteiro, Teatro Nacional D. Maria II. Obra original de José Régio. Fotografia de cena, em palco as actrizes Amélia Rey Colaço, Maria Barroso e Augusto Figueiredo numa cena do 3º acto - Museu Nacional do Teatro- Matriznet
Filme "Benilde ou a Virgem Mãe"(1975). Obra original de José Régio. Realização e argumento de Manoel de Oliveira. Fotografia com os actores: Augusto Figueiredo (padre Cristóvão); Maria Barroso (Genoveva); Jorge Rola (Eduardo); Maria Amélia Matta (Benilde)- CINEPT 

A jornalista pergunta a Maria Barroso se a personagem "Benilde" foi a que gostou mais de representar durante a sua vida de teatro.

MB - "Foi sim . Se bem que julgue ser o meu género, o género a que chamo de “genica” (não é muito elegante a palavra mas é a que costumo empregar, por ser a mais eloquente neste caso), embora me interessem sobretudo os papéis humanos, as figuras de “raparigas muito deste mundo, o certo é que a Benilde me apaixonou. Gosto de trabalhar, de vencer ou, pelo menos, tentar vencer as dificuldades que se me deparam. A Benilde foi, no campo teatral, a maior dificuldade que se me deparou até hoje. Fiz um esforço, uma grande tentativa para vencê-la; pus nisso o melhor do meu trabalho e da minha vontade. Não consegui vencer? Paciência... Dos fracos não reza a história, não é verdade, Maria Estrela?(Maria Estrela Monteiro, 1947: 4)

Peça de Júlio Dantas "Antígona". Levada à cena pela Cª Rey Colaço Robles Monteiro no Teatro Nacional D. Maria II em 1946. Fotografia de cena com as actrizes: Mariana Rey Monteiro (Antígona) e Maria Barroso (Isménia) - Museu Nacional do Teatro - Matriznet

Figurino para "Isménia" (Maria Barroso) para a peça de Júlio Dantas "Antígona". Guache em papel sobre cartolina. Autor: Lucien Donnat. Encenação de Amélia Rey Colaço Robles Monteiro e Erwin Meyenburg. Levada à cena pela Cª Rey Colaço-Robles Monteiro no Teatro Nacional D. Maria II em 1946 - Museu Nacional do Teatro - OPSIS 


No final da entrevista a jornalista Estrela Monteiro agradece: 
“Obrigada, Maria Barroso, e creia que lhe desejamos sinceramente que muitas “Benildes” se lhe deparem no seu caminho para que as possa vencer como venceu esta”.(Maria Estrela Monteiro, 1947: 4)


Maquete de cenário (lado direito) para a peça de Júlio Dantas"Antígona". Guache em papel sobre cartolina. Autor: Lucien Donnat. Encenação de Amélia Rey Colaço, Robles Monteiro e Erwin Meyenburg. Levada à cena pela Cª Rey Colaço Robles Monteiro no Teatro Nacional D. Maria II em 1946 - Museu Nacional do Taetro -  OPSIS 

No teatro profissional, Maria Barroso participou em peças levadas à cena pela Companhia Brunilde Júdice-Alves da Costa (Sua Excelência, o Ladrão - 1944; Madre Alegria - 1944) e Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro (Auto da Pastora Perdida e da Velha Gaiteira - 1944; Comédia Nova dos Maridos Peraltas e das Mulheres Sagazes - 1945; Férias - 1945; Vidas sem Rumo - 1945; Frei Luís de Sousa - 1945; Antígona - 1946; Benilde ou a Virgem Mãe - 1947; Retablo de Maravillas - 1947; A Casa de Bernarda Alba - 1948, entre outras).



Peça "Férias" (1945) Cª Rey Colaço - Robles Monteiro, Teatro Nacional D. Maria II. Fotografia de cena, em palco as actrizes: Maria Barroso, Beatriz Santos, Maria José, Augusto Figueiredo, Meniche Lopes e Gabriel Pais. Foto de Horácio Novais - Museu Nacional do Teatro- OPSIS

No cinema, Maria Barroso teve participações em filmes de Armando Miranda (1947 - Aqui, Portugal), Paulo Rocha (1966 - Mudar de Vida) e Manoel de Oliveira (1975 - Benilde ou a Virgem Mãe; 1977 - Amor de Perdição; 1979 - Amor de Perdição; 1985 - O Sapato de Cetim - Prémio L'Age d'Or, pela Cinemateca Real da Bélgica, em 1985).


Maria Barroso morreu no dia 7 de Julho de 2015, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, onde estava internada devido a uma queda. (Este post foi reformulado no dia 7 de Julho de 2015)


Filme "Mudar de Vida".(1966). Realização e argumento de Paulo Rocha. Prémio da Casa da Imprensa para Melhor Filme e 2º Prémio João Ortigão Ramos (19967)- CINEPT
Fotografia do filme "Mudar de Vida" (1966). Maria Barroso (Júlia). Realização e argumento de Paulo Rocha - CINEPT


Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Barroso
http://www.infopedia.pt/$maria-barroso-soares
http://www.prodignitate.pt/Curriculum_completo.pdf
http://caras.sapo.pt/
http://www.cinept.ubi.pt/pt/
http://www.amordeperdicao.pt/
Xavier, Leonor (1995), Um Olhar sobre a vida. Lisboa: Difusão cultural.



sábado, 27 de junho de 2015

Chapéus - Moda início do séc. 20

Toilettes à Longchamp. Corridas de cavalos no hipódromo de Longchamp, França (25/6/1911). Agência Rol/Agência fotográfica - Biblioteca Nacional de França

No princípio do século XX, o chamado estilo eduardiano (Eduardo VII) alicia as damas europeias a usar chapéus de exageradas dimensões. Os chapéus além de grandes, exigiam guarnições exuberantes como arranjos de plumas, pássaros de feltro, flores de pano e frutos. Os desenhadores fizeram do chapéu feminino objecto da caricatura e da sátira, conforme se observa nos postais ilustrados e ilustrações de periódicos. 

Un Télescope, dissimulé dans la coiffure... Autor: Xavier Sager - Câmara Municipal de Lisboa (1999), A Moda através do Bilhete Postal Ilustrado 1900-1950; Câmara Municipal de Lisboa. Lisboa: Ecosoluções
La mode en 1909. Autor: Xavier Sager -  Câmara Municipal de Lisboa (1999), A Moda através do Bilhete Postal Ilustrado 1900-1950 . Lisboa: Ecosoluções 
Le Sourire, nº 137. La Mode en 1909. Autor: F. Roberty  - Câmara Municipal de Lisboa (1999), A Moda através do Bilhete Postal Ilustrado 1900-1950. Lisboa: Ecosoluções
Le Sourire, nº 58. La Mode en 1909. Autor: F. Roberty - Câmara Municipal de Lisboa (1999), A Moda através do Bilhete Postal Ilustrado 1900-1950 . Lisboa: Ecosoluções
Le Sourire, nº 157. La Mode en 1909. Autor: F. Roberty - Câmara Municipal de Lisboa (1999), A Moda através do Bilhete Postal Ilustrado 1900-1950 . Lisboa: Ecosoluções  
- Le temps se gâte... Il va pleuvoir! -  Cella m'est égal: j'ai mon chapeau! (1903/1905). Dessinateurs et humoristes (Collection Jaquet). Autor: Démétrius Galanis - Biblioteca Nacional de França
Toilettes à Longchamp. Corridas de cavalos no hipódromo de Longchamp, França (15/10/1911). Agência Rol/Agência fotográfica - Biblioteca Nacional de França

Moda 1910. Litografia colorida. Autor: Ludwig Heinrich Jungnickel. The Metropolitan Museum of Art
A Moda em Paris. Vila Elegante - Jornal das Senhoras (Rio de Janeiro, 25 de Março de 1909; Ano 1, número 2, págs. 12/13) - Hemeroteca Digital do Brasil


Fontes:
Câmara Municipal de Lisboa, Museu da República e Resistência (1999) - A Moda através do Bilhete Postal Ilustrado 1900-1950.
 Lisboa: Ecosoluções
http://www.bnf.fr/fr/acc/x.accueil.html
http://memoria.bn.br/hdb/periodo.aspx






quarta-feira, 17 de junho de 2015

Cintura espartilhada - cartão HWB

Arquivo "comjeitoearte"
"Cintura espartilhada", com humor - cartão HWB Ser 3025.  Redigido em 1 de Janeiro de 1931?




sábado, 13 de junho de 2015

As Festas de Lisboa e a Procissão de Santo António

Festas de Santo António, São João e São Pedro, Junho de 1949, Lisboa. Cartaz, 100x70cm. - Biblioteca Nacional de Portugal (BNP)

Em Lisboa, as festas que no mês de Junho se dedicam a Santo António, São João e São Pedro, são de especial regozijo da população, em especial as dedicadas a Santo António. Realizam-se festas em diversos pontos da cidade, principalmente nos bairros tradicionais, onde as pessoas se divertem, comendo e bebendo, cantando e dançando até de madrugada. 

Nos anos 50 do século XX, os mais célebres Arraiais de Santo António, foram organizados na Praça da Figueira. Constituíam um espectáculo colorido e cheio de vida, com manjericos e cravo de papel com quadra, queima de alcachofras, fogo de artifício, lanternas, música e bailes, estendendo-se até ao Rossio. 



Recinto das festas dos Santos Populares na Praça da Figueira, 12/6/1950. Negativo de gelatina e prata em acetato de celulose - AML

A devoção dos alfacinhas por Santo António fez dele o santo mais venerado em Lisboa. É invocado para evitar naufrágios, para conseguir casamento, para encontrar objectos perdidos... A imagem do santo foi também a mais utilizada em peditórios públicos, depois do terramoto de 1755 ter destruído a primitiva igreja. Nos bairros populares, as crianças montavam os tronos de Santo António e por eles pediam uma moeda, para a construção de um na nova igreja. 


Procissão de Santo António, Igreja de Santo António, Lisboa, 13/06/1956. Negativo de gelatina e prata em acetato de celulose. Fotógrafo, Armando Serôdio - Arquivo Municipal de Lisboa (AML)

As procissões em Lisboa, constituíram sempre manifestações religiosas organizadas com grande aparato. A Procissão de Santo António, que remonta ao século XVI, integrada nas cerimónias dedicadas ao santo, em Junho, saía do Convento dos Franciscanos, levando à frente a imagem no andor. Antes do Terramoto de 1755, esta procissão terminava, geralmente, com uma corrida de touros, no Rossio, oferecida pelo Município. 


Procissão de Santo António, Santo António da Sé, Lisboa, 13/06/1955. Negativo de gelatina e prata em acetato de celulose. Fotógrafo, Armando Serôdio - Arquivo Municipal de Lisboa (AML)

A Procissão de Santo António, depois de vários anos esquecida, foi retomada em 1981, a 13 de Junho, dia das comemorações da cidade. O percurso de então era bastante reduzido, por isso, a população lhe chamava "o passeio do santo". 
A imagem do santo colocada no andor, sai da Igreja de Santo António para o adro. O santo acompanhado pelo presidente da Câmara, banda de música, escuteiros, bombeiros, crianças e devotos, passa pelos lugares que percorreu há setecentos anos. Nas ruas de Alfama, o santo encontra a imagem de São João da Praça, que aguarda na rua do mesmo nome. Em São Miguel, junta-se-lhe o andor da imagem do arcanjo. Ao passar no Largo de Santo Estêvão, encontra a imagem do santo com o mesmo nome. Na Rua das Escolas Gerais, entra a imagem de São Vicente (padroeiro de Lisboa), o último companheiro, São Tiago, junta-se-lhe em Santa Luzia. Entre janelas com colchas de seda, cravos brancos, música, cânticos e aplausos, avançam os cinco santos cada um em seu andor. Regressa finalmente a sua casa, a Igreja de Santo António.

Procissão de Santo António, a descer a Rua da Madalena, Lisboa, 1958. Negativo de gelatina e prata em acetato de celulose. Fotógrafo, Armando Serôdio - Arquivo Municipal de Lisboa (AML)
Procissão de Santo António - Câmara Municipal de Lisboa (CML)

Artistas e artesãos portugueses dedicaram algumas das suas criações ao tema "Procissão", entre eles, Amadeo de Souza-Cardoso, Francis Smith e o artesão Domingos Lima. O actor e declamador João Villaret tornou célebre o poema "A Procissão".


Procissão Corpus Christi, 1913. Óleo sobre madeira e óleo. Autor, Amadeo de Souza-Cardoso -  Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (CAM)
Procissão com andor de Nossa Senhora, séc. XX. Figurado de barro. Santa Maria de Galegos, Barcelos. Autor, Domingos Gonçalves Lima - Museu Nacional de Etnologia (MatrizNet).

A Procissão, 1939. Óleo sobre tela. Autor, Francis Smith - Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (CAM)
Projecto para painel figurativo (procissão), séc. XX. Guache e marcador sobre papel e plástico. Autores, João Machado Costa e Natércia Costa. - Museu Nacional do Azulejo
Procissão, 1945-46. Óleo sobre tela. Autor, Severo Portela Júnior. - Museu José Malhoa (MatrizNet).
Grupo de procissão, 1865. Desenho à pena. Autor, João António Correia - Museu do Chiado - Museu Nacional de Arte Contemporânea (MatrizNet)
Procissão, séc. XIX. Óleo sobre tela. Autor, José de Brito. - Museu Nacional de Soares dos Reis (MatrizPix)
         
          A Procissão
Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.
Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.
Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.
Tocam os sinos na torre da igreja,
.................................................
Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!
Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!
Tocam os sinos na torre da igreja,
........................................................
Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!
Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!
Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.

          Letra: António José Ribeiro
          Interprete: João Villaret 





Fontes:
Ayuntamiento de Lisboa: El Pueblo de Lisboa, Exposicion Iconográfica, 1990. Museo Municipal de Madrid;
Vieira, Alice, 1993. "Esta Lisboa". Editorial Caminho, Lisboa.
http://www.cm-lisboa.pt/viver/cultura-e-lazer/patrimonio-cultural/procissoes
http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=960







sexta-feira, 12 de junho de 2015

"Olhá varina de Lisboa!" - Costumes portugueses, séculos 19 e 20

Varinas na venda ambulanteLisboa, 1909. Negativo de gelatina e prata em vidro.Fotógrafo, Joshua Benoliel - Arquivo Municipal de Lisboa

A colónia varineira do distrito de Aveiro, foi de grande importância para a cidade de Lisboa, após a inauguração da Linha do Norte (ferroviária), em Novembro de 1877. Os varinos e varinas provinham de Murtosa e de Ovar, terra de onde lhes vem o nome. Toda a família, marido, mulher, filhos e irmãos, chegavam de comboio com destino ao bairro da Madragoa, onde alugavam casa. Os homens ocupavam-se na pesca, as mulheres dedicavam-se à venda ambulante, apregoando o peixe fresco, descalças, com a canastra à cabeça, por vezes acompanhadas dos filhos muito pequenos. 


Varina (mulher de Ovar) vendendo peixe em Lisboa ca. 1850. Litografia aguarelada. PALHARES, JOÃO. Costumes portugyeses /Palhares lith. - Lisboa: J. Palhares. ca. 1850. - BNP

Peixeira ovarina, 1908 - 1924. Cerâmica, barro vermelho moldado. Autor, Rafael Bordalo Pinheiro - Museu da Cerâmica
As Varinas. Guache sobre cartão, 1930. Autor, Jorge Barradas - Museu do Chiado - Museu Nacional de Arte Contemporânea (MatrizNet)
As Escadinhas, 1934. Óleo sobre tela. Autor, Francisco Smith - Museu do Chiado - Museu Nacional de Arte Contemporânea (MatrizNet)
Painel de azulejo decorativo, Varina da cidade de Lisboa. Pó-de-pedra, estampilha com Aerografo e pintura manual. Marca Sacavém. Terceiro quartel do século XX. 150 Anos- 150 Peças. Fábrica de Loiça de Sacavem. Museu de Cerâmica de Sacavém, 2006.
Varina, 1946. Desenho a lápis sobre papel. Autor, José de Almada Negreiros - Museu do Chiado - Museu Nacional de Arte Contemporânea (MatrizNet)

Varinas (Estudo), 1924. Óleo sobre tela. Autor , Mário Eloy - Centro de Arte Moderna Fundação Calouste Gulbenkian
Menino e Varina. Óleo sobre tela, 1928. Autor, Mário Eloy - .Museu do Chiado - Museu Nacional de Arte Contemporânea (MatrizNet)

No Tejo. Aguarela sobre papel. Autor, Alfredo de Morais - Museu José Malhoa (MatrizNet)


No caminho da Ribeira Nova, onde rematavam o peixe na lota, as varinas enfrentavam os Invernos rigorosos, de pernas nuas, pés descalços, saia arregaçada, faixa apertada sobre os quadris e na cabeça o chapéu de feltro preto sobre o lenço de cor berrante. As varinas de canastra à cabeça pousada sobre a “sogra” ( espécie de rodilha enrolada), subiam e desciam as escadarias dos bairros de Lisboa, vendendo sardinhas e outro pescado, seguidas por numerosos gatos. Repetiam os pregões em voz estridente e bem gritada: Pescada fresca!... Oh! Viva da costa!... Olha o rico safio gordo!... Posta de pescado!... Carapau do alto!... Pescada linda! As varinas mais ricas que vendiam no Mercado da Ribeira Nova, enfeitadas com grossos cordões de ouro, gritavam os mesmos pregões.


Cabeça de peixeira, 1938. Cerâmica, barro cozido pintado. Autor, Jorge Barradas - Centro de Arte Moderna Fundação Calouste Gulbenkian

Varinas na lota, Lisboa 1912. Negativo de gelatina e prata sobre vidro. Fotógrafo, Joshua Benoliel - Arquivo Municipal de Lisboa


Mulheres na Lota, 1952. Linogravura sobre papel. Autor, Júlio Pomar - Museu Dr. Joaquim Manso (MatrizNet)
Peixeira. Costume of Portugal, de Henri L'Evêque. 
Vendedeiras de Lisboa. Xilogravura sobre papel. Autora, Alice Jorge - Centro de Arte Moderna Fundação Calouste Gulbenkian
Peixeira, 1960. Água-Forte sobre papel. Autora Maria Keil - Centro de Arte Moderna Fundação Calouste Gulbenkian
Pescadores portugueses, 1941. Óleo sobre tela. Autor, Francis Smith - Centro de Arte Moderna Fundação Calouste Gulbenkian
Peixeira. Litografia sobre papel. Autor, Júlio Pomar -  Centro de Arte Moderna Fundação Calouste Gulbenkian
Peixeira em Lisboa vendendo peixe em Lisboa ca. 1850. Litografia aguarelada. PALHARES, JOÃO. Costumes portugueses /Palhares lith. - Lisboa: J. Palhares. ca. 1850. - BNP

Algumas varinas vendiam sardinhas fritas, improvisando um posto de venda em frente de uma taberna. Permaneciam no local sentadas durante várias horas, fritando as sardinhas em azeite, as quais, vendiam aos marinheiros e galegos.
A varina laboriosa, combativa, voluptuosa e de gestos desenvoltos, inspirou muitos poetas e artistas, fascinados pela cidade de Lisboa.

Vendedeira de sardinhas. Costume of Portugal, de Henri L'Evêque.   

Pote, 1926. Faiança com decoração por técnica de pintura manual, com quatro reservas com cenas alusivas á vida piscatória- pescador, varina, barcos e mar. Fábrica de Sacavém. Autor, Hermengarda Gilman de Carvalho. 150 Anos- 150 Peças. Fábrica de Loiça de Sacavem. Museu de Cerâmica de Sacavém, 2006.
VarinaMadeira torneada e pintada. Autor, Tomáz de Mello (TOM) - Museu de Arte Popular (MatrizNet)

Lisboa. Desenho, tinta estilográfica preta sobre papel. Autor, Bernardo Marques - Centro de Arte Moderna Fundação Calouste Gulbenkian

Varinas, 1951. Aguarela sobre papel. Autora, Madalena Cabral - Museu do Chiado - Museu Nacional de Arte Contemporânea (MatrizNet)
Peixeiras, 1983. Tinta da china sobre papel. Autor, Heitor Chichorro - Museu Francisco Tavares Proença Júnior (MatrizNet)


Varina (Lisboa), Portugal. Postal ilustrado. Autor Emílio Freixas Aranguren - Arquivo "comjeitoearte"
Evocação de Lisboa, 1949. Óleo sobre tela, Autor, Francisco Smith - Museu do Chiado - Museu Nacional de Arte Contemporânea (MatrizNet)
Varinas. Escultura em bronze. Autor, Mestre Lagoa Henriques - Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa 


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Vasam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, herculeas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vem sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
          
          ........................................................................................................
          in "O Sentimento de um Ocidental" - "Avé Marias"
VERDE, Cesário, 1855-1886
O Livro de Cesario Verde : 1873-1886 / publicado por Silva Pinto. - Lisboa : Typographia Elzeveriana, 1887. ( BNP)


Fontes: 
Ayuntamiento de Lisboa: El Pueblo de Lisboa, Exposicion Iconográfica, 1990. Museo Municipal de Madrid
CARVALHO, Pinto de, 1858-1936 Lisboa de outrora / Joäo Pinto de Carvalho ; ed. lit., coord. e not. Gustavo de Matos Sequeira, Luís de Macedo. - Lisboa : Grupo de Amigos de Lisboa, 1939 (BNP)
Abelho, Azinhal, Lisboa num cravo de papel. Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1968.