quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Bairros típicos - Alfama e Mouraria

 

Alfama - S. João da Praça. Pintura a aguarela sobre papel. Autor: Hermano Baptista. Dimensões: 62 X 48,5 cm. Data: 1929 - Museu José Malhoa - RAÍZ


O Tejo marulha aqui, junto ao Cais da Pedra onde se encostam as grandes fragatas com as velas enroladas. (...) Os homens do mar carregam e descarregam sal, cortiça e carvão, enquanto de ouvem apitos que assinalam o trabalho.

Mas Alfama está fixa e encantada no seu espectáculo popular, gritante e cantante, cheio de coragem e vivacidade. A Casa dos Bicos (frontaria com diamantes facetados do Oriente) mostra-se ainda como era, dum filho de Afonso de Albuquerque, cuja espada está de memória na colecção de peças de bronze, que se recolhem no Museu de Artilharia.

(...) 

Entramos por este conjunto arquitectónicos de prédios que se unem, apertam, sobrepõem e sobem  num labirinto emaranhado, com casebres, palácios e quitandas, águas-furtadas, terraços, torres,  balaústres e varandas. Um mundo insólito de itinerários, onde o nome dos becos tomam significados de interrogações quando os deciframos em cada esquina. Aqui está o Beco dos Cativos. E o do Mexia, da Bicha, do Vigário, do Azinhal, do Chanceler, do Cascão e da Formosa, do Carrasco, do Surra... Quem seria esta gente toda?

Lisboa - Alfama. Pintura sobre madeira. Autor: Francis Smith. Dimensões: 32,5 X 41 cm. Data: 1920 - Centro de Arte Moderna Gulbenkian

Alfama é um mundo diferente. Na rua de S. Pedro - um percurso que não se mede com cem metros - registam-se dezoito peixarias, oito tabernas, uma padaria, quatro mercearias, dois lugares de hortaliça, um talho e uma barbearia. Além do mais, há os vendedores de caracóis quentes, velhotes com rifas de beneficência, alcofas com objectos avulsos, um triciclo de farturas, dois cegos a cantar... Uma população ambulante grita, palreia, briga, faz esgares, ralha e canta. (...)

Alfama é pois uma festa num espectáculo vivo. (...)

 

Ruas da Mouraria. Pintura a óleo sobre madeira. Autor: Albertino Vieira Guimarães. Dimensões: 81X65cm. Data: 1938 - Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu Chiado - RAÍZ

Houve festa na Mouraria. Da Amendoeira ao Capelão, subindo o Benformoso, descendo a velha Rua da Palma, um tapete de rosmaninho cobriu o itinerário onde passavam os andores da Senhora da Saúde e do Mártir S. Sebastião. 

A Virgem coroada de Rainha, andou sorrindo, na sua hierática compostura, para o povo da cidade, que este ano, como em Abril de 1570, se ajoelha e reza cumprindo os votos de louvor e acção de graças, por ter, milagrosamente, restituído a saúde a Lisboa, depois de uma epidemia de peste. 

(...) São os tapetes com pétalas soltas no chão... As bandas de música, o repique dos sinos, as opas, as filas dos artilheiros, os magotes de povo que se ajoelham e rezam. (...)

Passou o andor, entre troar de clarins, cânticos religiosos, estralejar de foguetes, repiques de sinos...No seu trono de Rainha, Nossa Senhora da Saúde vê o povo de Lisboa dobrado a seus pés. (...)

 

Abelho, Azinhais - Lisboa num cravo de papel. Lisboa: CML, 1968


Pintura de Francis Smith na capa da Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo, nº 14, Abril de 1943




Fontes:

Abelho, Azinhais - Lisboa num cravo de papel. Lisboa: CML, 1968

https://raiz.museusemonumentos.pt/DetalhesObra?id=42224&tipo=OBJ

https://gulbenkian.pt/cam/works/lisboa-alfama-138962/

https://raiz.museusemonumentos.pt/DetalhesObra?id=201170&tipo=OBJ

Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo, nº 14. Lisboa: Secretariado de Propaganda Nacional, 1943


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