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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Lenços de mão bordados I Portugal

Lenço de cambraia e renda de agulha de Bruxelas, século XIX; dimensões: 364 x 360 mm. Pertenceu à colecção da Rainha D. Amélia de Portugal. De forma quadrada, num dos cantos está ornamentado pela coroa real. Sob a coroa real, vê-se a inicial "A", de Amélia. Siqueira, Maria Laura Viana (1977). "Lenços", Ensaios nº 9. Museu Nacional dos Coches.  Ministério da Comunicação Social: Lisboa  



O lenço como acessório ornamental do traje aparece na Itália renascentista do século XVI. Sendo um dos acessórios muito apreciado, como os leques e as luvas, foi adoptado pela França e Alemanha.


No decorrer dos séculos XVII, XVIII e XIX, o lenço mantém destaque como complemento do traje e torna-se requintado, guarnecido das mais belas e preciosas rendas.














Lenço de cambraia e rendas, bordado à mão, século XIX. De forma circular, é composto por cambraia bordada e rendas. No centro, cercadura bordada com motivos vegetais e iniciais coroadas. O lenço é rematado por um largo folho de renda Valenciennes Dimensões: 397 mm. Pertenceu à colecção da Rainha D. Amélia de Portugal. Siqueira, Maria Laura Viana (1977). "Lenços", Ensaios nº 9. Museu Nacional dos Coches.  Ministério da Comunicação Social: Lisboa  
Lenço de cambraia e renda, bordado à mão, 1900-1905. De forma quadrada, num dos cantos está ornamentado pelo monograma coroado de Amélia de Orléans. Faixa bordada formando medalhões. O lenço é rematado por renda Valenciennes, com decoração de motivos florais e vegetalistas. Dimensões: 400 x 385 mm. Pertenceu à colecção da Rainha D. Amélia de Portugal. Museu Nacional do Traje e da Moda transferido do Museu Nacional dos Coches. MatrizNet

No século XIX, os lenços dividem-se em duas categorias: o lenço vulgar, confeccionado de cassa ou cambraia lisa, sem ornamentação ou guarnecido por uma simples bainha aberta e rematado por renda de bilros, destina-se a uso diário;
o lenço mais delicado, trabalhado cuidadosamente sobre cassa ou cambraia fina, rematado de belas e preciosas rendas, sobressai como acessório ornamental do traje. 


Lenço de cambraia de linho, bordado à mão; 1900. Lenço de forma quadrada, de bordos recortados, ornamentado por uma cercadura bordada de pequenos ramos e folhinhas soltas. Num dos cantos o monograma da Rainha D. Amélia de Portugal, encimado por uma coroa. Dimensões: 370 x 360mm. Pertenceu à colecção da Rainha D. Amélia de Portugal. Siqueira, Maria Laura Viana (1977). "Lenços", Ensaios nº 9. Museu Nacional dos Coches.  Ministério da Comunicação Social: Lisboa  

Lenço de cambraia de linho, bordado à mão; 1900. Lenço de forma quadrada, de bordos recortados, ornamentado por uma cercadura bordada de pequenos ramos e folhinhas soltas. Num dos cantos o monograma da Rainha D. Amélia de Portugal, encimado por uma coroa (pormenor). MatrizNet

Nas décadas de 30 e 40, do século XIX, o lenço atinge o seu mais alto grau. A par dos acessórios femininos desta época, o lenço merece especial atenção, ornamentado de bordados finíssimos, frescos e leves, marcando o bom gosto e a elegância de quem o usa.
Na década de 50, a ornamentação das margens torna-se mais discreta em relação aos cantos. Sobressaem monogramas guarnecidos de flores e grinaldas, bordados num canto ou no centro do lenço.

Lenço de cambraia e renda, bordado à mão; século XIX. Lenço de forma quadrada, com cercadura em crivo com ramos dispersos e iniciais bordadas. Renda de bilros estreita remata o lenço. Ornamentação nos quatro cantos de diversos motivos figurados e respectivas legendas: "Saudade"; "O Filho Pródigo"; "O Pagem do Duque de Bretanha"; " O Homem Ciozo". Dimensões: 490 mm. Pertenceu a Maria Lobo de Ávila Lima. Siqueira, Maria Laura Viana (1977). "Lenços", Ensaios nº 9. Museu Nacional dos Coches.  Ministério da Comunicação Social: Lisboa  
Lenço de cambraia e renda de agulha de  Bruxelas; século XIX. Lenço de forma quadrada, tem o centro em cambraia finíssima ornamentado por renda com motivos florais diversos. Siqueira, Maria Laura Viana (1977). "Lenços", Ensaios nº 9. Museu Nacional dos Coches.  Ministério da Comunicação Social: Lisboa  
Lenço de linho e renda, bordado à mão; século XIX. Ao centro um pequeno quadrado de linho, contornado por barra trabalhada em crivo finíssimo com decoração floral. Remate em renda de bilros com bordos recortados. Dimensões: 410 mm. Siqueira, Maria Laura Viana (1977). "Lenços", Ensaios nº 9. Museu Nacional dos Coches.  Ministério da Comunicação Social: Lisboa  

O Correio das Damas: jornal de litteratura e de modas, 1 de Julho de 1836, tomo 1 (na imagem, a senhora que está sentada segura um lenço rematado por folho, na mão esquerda.). - Biblioteca Nacional de Portugal 
O Correio das Damas: jornal de litteratura e de modas, 1 de Agosto de 1836, tomo 1, pág. 114. (pode ler-se no canto superior esquerdo, a tendência da moda sobre o uso de lencinhos - Biblioteca Nacional de Portugal
Modas.
 (...)
- Os fichús, ou lencinhos á camponesa; os guarnecidos de renda, ou de prégas, são os que as Senhoras agora empregam. Os lencinhos ou fichús guarnecidos de renda são os mais elegantes pela variedade e bom gosto que nelles se nota.
(...)
O Correio das Damas: jornal de litteratura e de modas, 1 de Agosto de 1836, tomo 1, pág. 114 (em cima, na imagem, canto superior esquerdo)

O Correio das Damas: jornal de litteratura e de modas, 1 de Abril de 1837, tomo 2 (na imagem, a senhora segura um lenço e um leque na mão esquerda). - Biblioteca Nacional de Portugal

Lenço de tecido e renda de bilros; século XIX-XX. Renda de bilros com motivos florais; decoração de fuccias. Dimensão 280 x 280 mm. Autoria de Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro. Museu do Chiado - Museu Nacional de Arte Contemporânea. MatrizNet.
Lenço de linho e renda, bordado à mão; século XIX. Lenço de forma quadrada, rematado nas extremidades por renda de bilros estreita.  Ao centro, um pequeno quadrado de linho, com monograma bordado, ornamentado em toda a volta por larga barra em bainha aberta com pontos diferentes. Dimensões: 320 mm. Siqueira, Maria Laura Viana (1977). "Lenços", Ensaios nº 9. Museu Nacional dos Coches.  Ministério da Comunicação Social: Lisboa  
Lenço de cassa e renda, bordado à mão; século XIX. Lenço de forma quadrada, ornamentado por cercadura bordada formando pequenos quadrados. Cada um dos quadradinhos tem bordado um motivo floral. O lenço é rematado nas extremidades por renda de bilros Valenciennes. Dimensões: 470 x 460mm. Siqueira, Maria Laura Viana (1977). "Lenços", Ensaios nº 9. Museu Nacional dos Coches.  Ministério da Comunicação Social: Lisboa  
A partir da década de 60, do século XIX, o bordado simplifica-se, os motivos tornam-se mais rígidos e perdem muito da sua leveza anterior. É comum verem-se lenços com um simples motivo bordado a um canto e as iniciais dos monogramas mais reduzidas e menos ornamentadas. 

Nos lenços mais elaborados, embora o bordado se simplifique, a renda continua a aplicar-se, sendo a renda de Valenciennes a mais utilizada.


Lenço de cassa e renda; século XIX. Centro de cassa lisa. Guarnecido de renda francesa ou belga, apresenta os cantos e lados recortados. Dimensões: 318 x 315 mm. Foi usado por Celeste Cinatti, mãe de D. Beatriz Cinatti Batalha Reis, a 5 de Setembro de 1872, dia do seu casamento com Jaime Batalha Reis. Oferecido por D. Beatriz Cinatti Batalha Reis, ao museu. Siqueira, Maria Laura Viana (1977). "Lenços", Ensaios nº 9. Museu Nacional dos Coches.  Ministério da Comunicação Social: Lisboa  


Lenço de cambraia e renda Valenciennes, bordado à mão; século XIX. Lenço de forma quadrada, com centro de cambraia decorado por uma faixa bordada de motivos fitomórficos, aplicada sobre a renda das extremidades. Num dos cantos vêem-se bordadas as iniciais "B. C.", de Beatriz Cinatti, pessoa de família da doadora, que usou este lenço no dia do seu casamento, anterior a 1871. Dimensões: 377 x 360 mm. Oferecido por D. Beatriz Cinatti Batalha Reis, ao museu.  Siqueira, Maria Laura Viana (1977). "Lenços", Ensaios nº 9. Museu Nacional dos Coches.  Ministério da Comunicação Social: Lisboa


Lenço de cassa, bordado à mão; século XIX. Lenço de forma quadrada, de cantos e lados arredondados com recorte miúdo em caseado. Ornamentado por motivos florais e animalistas. Nos cantos vêem-se cornucópias floridas, veados e corças. Os motivos animalistas são executados em ponto de cadeia minúsculo, e os motivos florais em ponto de agulha, a cheio, ilhós e pintinhas. Dimensões: 410 x 400mm. Siqueira, Maria Laura Viana (1977). "Lenços", Ensaios nº 9. Museu Nacional dos Coches.  Ministério da Comunicação Social: Lisboa  

No decorrer do século XIX, as proporções dos lenços sofrem alterações. Os lenços de cerca de 60 cm de lado, passam para 45 cm após meados do século, e para 30 cm nos finais do século, diminuindo as dimensões à medida que o século avança.


O Correio das Damas: jornal de litteratura e de modas, 31 de Maio de 1844; legenda: "Chapéo de escomilha. Vestido de seda. Mangas e fichú de cassa. Chapéo de gase. Vestido de seda. Mantelete de tarlatana." A senhora que está sentada segura um fichú (lencinho guarnecido de renda) de cassa, na mão direita. Biblioteca Nacional de Portugal


O Correio das Damas: jornal de litteratura e de modas, 31 de Maio de 1844, pág. 40. (pode ler-se no canto superior esquerdo, exemplo de toilette de passeio, em que o lenço é acessório ornamental do traje) - Biblioteca Nacional de Portugal.


Modas.

Toilettes diversas.

Toilette de passeio. -  (...)

Dita. -  Chapéo de palha de arrôz, ornado de uma ave do paraiso e fitas côr de rosa. Vestido de grô de India, côr de bronze, guarnecido em roda da saia de dois folhos. Corpo liso e decotado. Mangas justas. Manta de barége branca. Cabeção e punhos de renda. Luvas brancas. Lenço de assoar de cambraia, guarnecido de rendas. Botinhas pretas.
O Correio das Damas: jornal de litteratura e de modas, 31 de Maio de 1844, pág. 40 (na imagem, em cima, canto superior esquerdo).
O Correio das Damas: jornal de litteratura e de modas, 31 de Outubro de 1852 (na imagem, as senhoras seguram lenço, na mão direita). Biblioteca Nacional de Portugal
O Correio das Damas: jornal de litteratura e de modas, 31 de Outubro de 1852, pág. 174 (pode ler-se  na coluna da direita, ao centro, exemplo de toilette de passeio,  em que o lenço é acessório ornamental do traje). Biblioteca Nacional de Portugal
Modas.
 Toilettes diversas.
Toilette de passeio. - (...) 
Dita. - Chapéo de cetim branco, ornado de plumas e fitas da mesma côr. Vestido de tafetá côr de ganga, guarnecido em roda da saia de quatro ordens de folhos estampados com listas escarlate e brancas; e na extremidade ornados de uma pequena franja branca. Corpo liso, afogado e aberto até á cintura, ornado no decote de uma banda, descendo até á cintura. Mangas largas, e guarnecidas de cinco ordens de folhos, iguaes aos da saia. Sob-mangas e camizeta de renda. Luvas brancas. Lenço de assoar de cambraêta de linho bordado. Botinhas de setim preto.
O Correio das Damas: jornal de litteratura e de modas, 31 de Outubro de 1852, pág. 174  (na imagem, em cima,  coluna da direita, ao centro).

Lenço de amor; século XX. Lenço de forma rectangular, cor bege, bordado a ponto cruz com linha laranja. A orla é recortada, debruada com linha bege, em ponto de casear. A peça tem dois entremeios de crivo branco. Dimensões: 48,5 X 51 cm. Proveniência: Meadela. Museu Nacional de Etnologia. MatrizNet
Lenço de amor; século XX. Lenço de forma rectangular, cor algodão branco, bordado a ponto de cruz com linhas verde e vermelha. A orla é rectilínea guarnecida com renda industrial branca. O motivo central apresenta um escudo real, cercado por uma silva que forma um quadrado.  Dimensões: 43,5 X 46,5 cm. Proveniência: Barcelos. Museu Nacional de Etnologia. MatrizNet
Lenço de namorados; século XIX. Lenço em cambraia bordado à mão. Cercadura de cravos bordada a encarnado e azul em ponto de cruz. Contornando os quatro lados do lenço, lêem-se as seguintes legendas: " Se ha nas dadivas pomposas" / "Monumentos de vaidade" / "Ostentao pequenos mimos" / "Penhor de pura amisade". Ao centro, pequeno rectângulo bordado com cravos minúsculos. Dimensões: 680 X 700 mm.
Siqueira, Maria Laura Viana (1977). "Lenços", Ensaios nº 9. Museu Nacional dos Coches.  Ministério da Comunicação Social: Lisboa  
Os lenços de namorados, bordados pelas raparigas casadoiras, eram oferecidos aos seus noivos e eles usavam-nos com o seu traje domingureiro. As quadras bordadas e outras decorações de sabor popular, são por vezes, passadas entre gerações de mulheres da mesma família.


Revista "Modas e Bordados", nº 1663, de 22 de Dezembro de 1943., pág. 13. Sugestão de bordados para lencinhos, executados em crepe georgette branco, ou outras cores em tons claros.

Revista "Modas e Bordados", nº 1595, de 2 de Setembro de 1942, pág. 14. Sugestão de bordado para canto de lenço.

Revista "Modas e Bordados", nº 1601, de 14 de Outubro de 1942, pág. 12. 

Para guardar os lenços

Bonito "sachet" em crepe de China ou cambraia verde claro, onde os lenços mais delicados estariam perfeitamente acomodados. O "sachet" é acolchoado, sendo o motivo florido bordado a "ponto de argola" para as flores e a "cheio" para as folhas.
Revista "Modas e Bordados", nº 1601, de 14 de Outubro de 1942, pág. 12. 

Lenço de linho, bordado à mão; cerca de 1950.  Lenço de forma quadrada, em linho branco. Canto com motivos vegetalistas em ponto de agulha, a cheio e ponto pé de flor minúsculo, e motivos florais em ponto de agulha, em bordado inglês. Bordado com linha branca. Dimensões: 410 x 400mm. Extremidade do canto com recorte miúdo caseado (foto "comjeitoearte").

Lenço de cambraia, bordado à mão; século XX. Lenço de forma quadrada, em cambraia branca. Canto com motivos florais em ponto de agulha, a cheio, ajour e crivo bordado. Bordado com linha branca. Dimensões: 260 x 260mm.(foto "comjeitoearte").
Além do lenço de mão e do lenço de algibeira, existem os lenços de cabeça, os lenços de pescoço, e o lenço "tabaqueiro", menos conhecido que os anteriores. Este tipo de lenço está ligado ao uso de rapé, hábito difundido na sociedade do século XIX, e inícios do século XX. O grande formato e a confecção em tons escuros com largas barras de riscas, caracterizavam este lenço. 

Lenço de linho, bordado à mão; século XX.  Lenço de forma quadrada, em linho branco. Canto com monograma e motivos  florais em ponto de agulha, a cheio, ponto pé de flor minúsculo e ponto de sombra. Bordado com linha branca e cor de rosa. Extremidade do canto com recorte miúdo caseado, bordado com linha cor de rosa. Dimensões: 320 x 320mm.(foto "comjeitoearte").

Lenço de cambraia, com renda industrial alemã; cerca de 1970. Lenço de forma quadrada, guarnecido nas extremidades com renda. Dimensões: 270 X 270mm (foto "comjeitoearte").

Lenço de seda, com renda de bilros; cerca de 1940. Lenço de forma quadrada, guarnecido nas extremidades com renda de bilros. Dimensões: 210 X 220mm (foto "comjeitoearte").


Na literatura portuguesa, mais concretamente na obra "A Ilustre Casa de Ramires", de Eça de Queirós (1845-1900), o uso do lenço, para além de símbolo de estatuto, tem "linguagem própria"...  

(...)
O Cavaleiro, ao espelho, esticava o fraque - que experimentara abotoado, depois repuxadamente aberto sobre o colete de fustão cor de azeitona onde, no trepasse largo, tufava a gravata de sedinha clara, prendida por uma safira. Por fim, encharcando o lenço com essência de feno:
(...) Cólera contra a irmã que, calcando pudor, altivez de raça, receio dos escárnios de Oliveira, tão fácil e estouvadamente como se calcam as flores desbotadas de um tapete, correra ao mirante, ao macho da bigodeira, apenas ele lhe acenara com o lenço almiscarado! (...)
Queiróz, Eça. A Ilustre Casa de Ramires, Livros do Brasil: 2015. (págs. 190 e 272).
Retrato da rainha D. Maria Pia, cerca de 1875-1885. Óleo sobre tela. Autor: Louis S. MaeterlincK. Dimensão: 239 x 138.cm. Palácio Nacional de Mafra. (A rainha segura um lenço na mão direita). MatrizNet



(...)

Na alta sociedade das cortes desenvolveu-se com o tempo uma linguagem elaborada dos lenços de assoar. Desta forma, o acenar com um lenço na partida significava: “Vou permanecer-te fiel!; um lenço pendurado na janela avisava: “Cuidado estou a ser vigiada!”; um lenço deixado cair do bolso das calças como que por acaso queria dizer: “O meu coração pertence a outrem.”
 (...)
RANGA YOGESHWAR, Almanaque da Curiosidade Casa das Letras. 1ª ed  2011. págs. 151 e 152. 
   

Retrato da rainha D. Catarina de Bragança, cerca de 1662-1668. Óleo sobre tela. Autor: Desconhecido. Dimensão: 163 x 133.cm. Museu Nacional dos Coches. (A rainha segura um lenço na mão direita, pousada sobre o regaço). MatrizNet

Fontes:

Siqueira, Maria Laura Viana (1977). "Lenços", Ensaios nº 9. Museu Nacional dos Coches.  Ministério da Comunicação Social: Lisboa  

Queiróz, Eça. A Ilustre Casa de Ramires, Livros do Brasil: 2015. (págs. 190 e 272).


RANGA YOGESHWAR, Almanaque da Curiosidade Casa das Letras. 1ª ed  2011pág 152

https://books.google.pt/books?id=kkxNheyXNiYC&hl=pt-PT&source=gbs_navlinks_

http://purl.pt/14346

http://www.matriznet.dgpc.pt/matriznet/home.aspx


sábado, 14 de fevereiro de 2015

Lenços tradicionais portugueses - trajes típicos

Tabaqueiro conhecido pelo "O Alcobaça", séc. XIX - Lenços e Colchas de Chita de Alcobaça. Museu de Alcobaça, 1988. IPPC.

O lenço tabaqueiro conhecido pelo "O Alcobaça", é um grande lenço quadrangular de algodão, de fundo vermelho, azul ou amarelo, lavrado com barras de diferentes tipos e cores. Originalmente foi fabricado pela Real Fábrica de Lençaria e Tecidos Brancos de Alcobaça, fundada em 1774. 


Tabaqueiro conhecido pelo "O Alcobaça", séc. XIX - Lenços e Colchas de Chita de Alcobaça. Museu de Alcobaça, 1988. IPPC.

Lenço estampado conhecido por "Lenço de Alcobaça" - Lenços e Colchas de Chita de Alcobaça. Museu de Alcobaça, 1988. IPPC.
Lenço estampado conhecido por "Lenço de Alcobaça" - Lenços e Colchas de Chita de Alcobaça. Museu de Alcobaça, 1988. IPPC.

A Real Fábrica é transmitida a título de venda à Sociedade Carvalho e Guillot, em 1792. Com esta sociedade assiste-se ao aumento da especialização e actualização do equipamento técnico.

É por volta de 1815-18 que se fixa e aperfeiçoa o célebre lenço denominado "O Alcobaça". A procura acentuada deste lenço, dito tabaqueiro, "obriga" a que se fabriquem 97 padrões, com 8, 10, 12, 14 e 18 cores.
"O Alcobaça" é citado por escritores como Camilo Castelo Branco na "Brazileira de Prazins", Aquilino Ribeiro em o "Volfrâmio" e Júlio Dantas na "Severa".

Posteriormente em 1932, a Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça, retoma o fabrico deste tipo de lenço.


(...)
Em 1820, é que se operou uma alteração mais acentuada no vestuário masculino. O innovador vintista, o "de vinte", vestia casaca de briche e tromblon (chapéu alto de pêlo),calça larga até à bota, collete de baetão pardo, castanho ou vermelho, abotoado de prata, bota de presilhas cahidas, collarinho de bretanha e lenço ramalhudo de Alcobaça. (...)
História do Trajo em Portugal; Lello e Irmão, Porto. Págs. 54-55  
Lenço de namorados; tecido de algodão, bordado a ponto pé de flor, ponto lançado, zig-zag e renda; A. 20,5 x L. 20,5; séc. XIX?; "Meu Manuel vai para o Brasil/ Eu também vou no vapor/ Guardada no coração/ Daquele que é meu amor" ; Viana do Castelo - Museu de Arte Popular
Lenço de namorados; tecido de algodão, bordado com fio de algodão encarnado; ponto cruz; A. 54,5 X L. 55 cm; Baixo Minho (1956-1975) - Museu Alberto Sampaio
Lenço de Amor ; tecido de linho, bordado com fio de algodão; ponto cruz, croché e ponto espiguilha; séc XX; L. 32,5 x A. 30 cm - Museu Nacional de Etnologia
Lenço de Amor; tecido, bordado com fio de algodão laranja e branco; ponto cruz, ponto de casear e crivo; L. 48,5 x A. 51 cm; séc XX - Museu Nacional de Etnologia
Lenço de Amor; tecido de algodão bordado com linha preta; ponto cruz, ponto de casear, ponto cheio e crivo; L. 48 x A. 44 cm; séc XX - Museu Nacional de Etnologia

Lenço de Namorados, confeccionado sobre tecido de linho ou lenço de algodão, era bordado com motivos variados, escolhidos pela sua autora. Esta peça de vestuário típico do Minho, era usada por mulheres em idade de casar. 

A rapariga apaixonada bordava o seu lenço com versos e desenhos, tendo simbologia própria, e entregava-o ao seu amado. Se o homem usasse o lenço em público demonstrava que tinha dado início ao namoro. A origem dos "Lenços de Namorados" ou "Lenços de Pedidos" está, provavelmente, ligada aos lenços senhoriais do século XVII e XVIII. Posteriormente foram adaptados pelas mulheres do povo, adquirindo um aspecto mais popular.


Lenços de cabeça, traje de lavradeira do Minho; sarja de lã estampada, com motivos florais, vegetalistas e cornucópias; franjas de lã; 1940; Santa Marta de Portuzelo - Viana do Castelo- Minho -Museu Nacional do Traje e da Moda 

Lenço de pescoço, traje de lavradeira do Minho; sarja de lã estampada, com motivos florais, vegetalistas e cornucópias; franjas de lã; 1940; Santa Marta de Portuzelo - Viana do Castelo- Minho - Museu Nacional do Traje e da Moda 
Minho; aguarela sobre papel (42 x 48cm); 1935; autora Raquel Roque Gameiro - Museu José Malhoa 
Lenço de cabeça (inteiro), de algodão, de forma quadrangular, de fundo azul estampado com motivos geométricos, florais e vegetalistas de cor castanho, branco e amarelo. Traje de Domingar.  Museu do Traje de Viana do Castelo; 2007. CM Viana do Castelo
Lenço de cabeça (inteiro), de sarja, de forma quadrangular, de fundo vermelho, estampado com motivos geométricos, florais e vegetalistas em cor-de-laranja e azul. Traje de Domingar.  Museu do Traje de Viana do Castelo; 2007. CM Viana do Castelo
Lenço de cabeça (inteiro), de  algodão, de forma quadrangular, de fundo azul, estampado com elementos florais e geométricos de cor branco e amarelo. Traje de Domingar.  Museu do Traje de Viana do Castelo; 2007. CM Viana do Castelo
Lenço de cabeça, de sarja de lã, bordado com motivos vegetalistas na cor violeta; A. 100 x L. 100 cm; 1976; Arcos de Valdevez (Minho); Arquivo comjeitoearte .

O traje de lavradeira do Minho ou traje à vianesa, foi usado pelas raparigas das aldeias rurais, próximas da cidade de Viana do Castelo, até ao início do século XX. Definido pela riqueza das cores e elementos decorativos, este traje é facilmente identificado com a região de origem. 

As saias resultam de uma variedade de combinações de lã, linho ou algodão, em cores e tons diversos. As camisas de linho branco, são decoradas com bordados, folhos e rendas. O colete muito curto, é guarnecido com barras de veludo preto lavrado. Os aventais estreitos e curtos, têm esplêndidos bordados em ponto de tapete, nas mais belas cores. Os lenços de cabeça são usados de diversas formas: em grande laço, fazendo diadema sobre os cabelos, achatados no alto da cabeça ou envolvendo o cabelo enrolado sobre a nuca. Tradicionalmente são de fundo vermelho, estampados com motivos geométricos, florais, vegetalistas e cornucópias. 


A rapariga da aldeia que cultivava o linho e criava as ovelhas, executava com frequência as peças de roupa que decorava com bordados. O traje era usado e mostrado com orgulho em momentos distintos da vida quotidiana, em que a mulher se queria apresentar mais bem arranjada, para ir à missa ou à cidade, à feira ou ao mercado ou às romarias.


Lenço de cabeça; seda de damasco com motivos florais e geométricos, em cor amarelo, azul, castanho e verde (séc. XIX-XX?); L. 100 X A. 100 cm; Trás-os-Montes - Museu de Arte Popular
Lenço, traje; seda de damasco cor-de-laranja, com motivos em brocado de cor amarelo, verde e violeta  (séc. XX); A. 93,5 X L. 92 cm; Trás-os-Montes? - Museu de Arte Popular
Lenço, traje; seda de damasco com motivos florais e vegetalistas (séc. XX); A. 100 X L. 90 cm; Trás-os-Montes (Miranda do Douro/ Duas Igrejas) - Museu de Arte Popular


O traje de trabalho da mulher da Nazaré, continua a ser usado no dia-a-dia pelas mulheres mais velhas. Em dias de festa e dias santos, o traje de festa é vestido com orgulho por todas as nazarenas. 

O lenço de pontas caídas, é usado sob a capa preta, e sobre esta, um chapéu de feltro grosso com abas reviradas e uma grande borla ao lado esquerdo. Debaixo da capa, a mulher veste blusa justa de chita de algodão, com ramagens, ou branca com flores. A "saia de cima" de escocês, de terylene plissada. de merino preto ou de chita com barra de veludo preto, cobre as sete ou oito "saias de baixo", de pano branco guarnecidas com bordado, de flanela ou algodão, com recortes e debruadas a crochet ou fita de várias cores. O avental de cetim ricamente bordado, acompanha a saia no seu comprimento. 


"Alzira" vestindo o traje tradicional da zona da Nazaré; lenço preto com flores vermelhas; aguarela sobre cartão; 1940; autor, Alberto Souza - Museu José Malhoa
Lenço feminino, traje de festa; lã com motivos geométricos (séc. XX); Nazaré - Museu Dr. Joaquim Manso
Traje típico da mulher da Nazaré (sete saias); lenço solto por debaixo do chapéu. Postal; autor Emílio Freixas Aranguren; arquivo, comjeitoearte.
Algumas maneiras de usar o lenço do traje tradicional da Nazaré; tinta da China sobre papel; 1955; autor, Abílio Mattos Silva -  Museu Dr. Joaquim Manso
Lenço, traje; lã merino, com padrão de motivos fitográficos geometrizados de cores azul, vermelho, amarelo, verde e castanho; séc. XIX - XX; L. 98 X A. 98 cm; Nazaré - Museu Nacional de Etnologia
Vendedeira de peixe, Lisboa; lenço de cor creme pendendo pelas costas; aguarela sobre papel; 1940; autor, Alberto Souza - Museu José Malhoa




Lenço de cabeça, traje de varina; lã, com padrão de motivos vegetalistas e geométricos, lavrado e bordado com fio de seda amarelo, sobre fundo roxo; A. 102 x L. 97,5 cm fabricado no Porto - Museu Nacional do Traje e da Moda

Na região saloia, situada nos arredores de Lisboa, o trajar da mulher definia-se pela blusa e saiotes de chita garrida, a saia a um palmo e meio dos pés, as botas de cano curto, o avental, que, para além da função utilitária de proteger a saia, era também utilizado como adorno e o lenço. O arranjo da cabeça era muito importante no traje da saloia. As que vinham no Inverno a Lisboa, envolviam o rosto nas reviravoltas do lenço, ficando apenas de fora os olhos e o nariz. 

No Verão, o calor não as impedia de usar o lenço. Solto ou cingido, a sua posição e arranjo dependia do uso e gosto da mulher. As duas pontas laterais do lenço, enlaçavam-se: nó à frente; nó atrás na nuca; do queixo para a nuca; nó pousado no cimo da cabeça... O chapéu de palha, amplo e de abas largas, colocado sobre o lenço, protegia-a do sol.


Ceifeiras - Lumiar; lenço estampado na cabeça, atado sobre a nuca; óleo sobre tela; 1839; autor, António Carvalho de Silva Porto - Museu Nacional Soares dos Reis
Raparigas do Paço do Lumiar, com trajes de saloia,saia comprida, casaquinha e lenço vermelho na cabeça; óleo sobre tela; 1881-1893; autor, António Carvalho de Silva Porto - Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves
Figurino "A Saloia do burro cebolinha" (Beatriz Costa) da revista "Lua-Cheia"; aguarela e lápis sobre papel; 1943; lenço amarelo com pintas vermelhas; autor, Adolfo Hubner - Museu Nacional do Teatro
Fotografia de cena da revista "Lua-Cheia; actores Costinha no papel de "Saloio do burro" e Beatriz Costa no papel de "Saloia do burro cebolinha"; 1934; autor, Horácio Novais - Museu Nacional do Teatro
Saloia de Sintra; lenço atado na nuca; aguarela sobre papel; 1940; autor, Alberto Souza - Museu José Malhoa


Lenço, traje; tecido de algodão com motivos florais, vegetalistas e geométricos, em cor amarelo vermelho e verde sobre fundo vermelho; L. 66 x A. 70 cm; séc. XIX - XX; fabricado por "A União de Sacavém" - Museu Nacional de Etnologia


O lenço que tu me deste
Tem dois corações ao meio:
Tu não descubras ao mundo
Donde este lenço veio.


No início do século XX, as mulheres da região do Algarve completavam o traje de trabalho com chapéu em feltro ou palha, de aba direita, colocado por cima do lenço de cor, em chita ou lã. Nos dias festivos adornavam o chapéu com uma pena de pavão, e colocavam-no sobre um lenço de seda. O lenço era usado completamente solto ou envolvendo a cabeça e atado atrás ou debaixo do queixo. 

A blusa era de chita, com manga larga e apertada nos punhos. A saia exterior de algodão escuro, rodada, com padrão de barras ou xadrez, descia até ao tornozelo. Por baixo desta, existia uma saia, rendada e com folhos, e um saiote, geralmente encarnado. O avental, comprido, liso ou com pequeno folho, protegia a saia. Usavam sapatos grosseiros no dia-a-dia, que, em ocasiões festivas, substituíam por uns de cabedal preto, com meia branca de linho.


Traje de trabalho da mulher do Algarve; lenço de forma quadrangular, em sarja de lã estampada com motivos florais vegetalistas e geométricos, em tons castanho, amarelo e vermelho. Barra azul escuro; 1940 - Museu Nacional do Traje e da Moda
Lenço de cabeça; algodão estampado com padrão de motivos florais e de influência oriental, em tons castanho, amarelo e verde, sobre fundo azul turquesa; barra com cornucópias entrelaçadas; séc. XIX - XX (?); L. 72 X A. 72 cm; Algarve - Museu de Arte Popular
Lenço, traje; algodão estampado com padrão de motivos florais com enrolamentos e grinaldas de cores azul, verde e rosa; séc. XIX - XX (?); L. 78,5 X A. 79,5 cm; Algarve - Museu de Arte Popular.
Traje típico da mulher do Algarve; lenço em tons vermelho e branco, atado sobre o queixo. Postal; autor Emílio Freixas Aranguren; arquivo, comjeitoearte.

Commercio portuguez em Bristol, e portos adjacentes, no anno de 1838.
(...) 
"Lenços de Tecido de Algodão da Fábrica dos Srs. Pomme & Cª, no Campo Pequeno, com Armazém na Travessa de S. Nicoldo, num. 41 e 42". 
Os Lenços de Algodâo desta Fabrica foram justamente elogiados, e especialmente pela bondade de suas côres e tecido. Esta manufactura tem gosado de constante preferencia desde a epocha em que os primeiros Lenços desda qualidade se principiaram a lavrar na Fabrica de Alcobaça; e póde afoutamente dizer-se, que ella, por seu fino e bem acabado, está quasi exempta de toda a concorrencia estrangeira. (...)
“ Chitas, e Lenços estampados da Fabrica da Sr.ª  Viuva Bandeira 8 Ca, em Chellas".
Os Lenços são de muita perfeição, e podem competir com os melhores, neste genero, das Fábricas estrangeiras. (...)
Mascarenhas, Antonio Barão. Commercio portuguez em Bristol, e portos adjacentes, no anno de 1838. Offerecido aosportugueses por A. B. de Mascarenhas. Editora Nathaniel Lomas, 1839


Fontes:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Len%C3%A7os_de_namorados
http://www.cm-viana-castelo.pt/pt/mt-apresentacao
Duarte, L. Cristina, Trajes Regionais, Gosto Popular, Cores e formas; 2007, CTT
http://www.freixas.es/caste/caste_index.htm
http://www.cm-nazare.pt/Home/Home.aspx


Traje de Domingar.  Museu do Traje de Viana do Castelo; 2007. CM Viana do Castelo


Mascarenhas, Antonio Barão. Commercio portuguez em Bristol, e portos adjacentes, no anno de 1838. Offerecido aosportugueses por A. B. de Mascarenhas. Editora Nathaniel Lomas, 1839

https://books.google.pt/books?id=KKZVAAAAcAAJ&dq=len%C3%A7os&hl=pt-PT&source=gbs_navlinks_s